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Rosane de Mello Santo Nicola

Artigo de Opinião

É docente do Curso de Letras da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e presidente da Comissão Organizadora do VII Fórum Nacional de Revisão de Textos, que acontece nos dias 06 e 07 de maio de 2026, em formato híbrido, na PUCPR - Câmpus Curitiba
Rosane de Mello Santo Nicola

IA e revisão de textos: apoio ou risco ético-estético?

Não é preciso rejeitar a tecnologia. É preciso reposicioná-la nos contextos de revisão escolar e editorial, colocando o discernimento no centro do processo revisional
Rosane de Mello Santo Nicola
É docente do Curso de Letras da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e presidente da Comissão Organizadora do VII Fórum Nacional de Revisão de Textos, que acontece nos dias 06 e 07 de maio de 2026, em formato híbrido, na PUCPR - Câmpus Curitiba

Publicado em 22 de Abril de 2026 às 17:53

Publicado em 

22 abr 2026 às 17:53

Corretores gramaticais sofisticados. Detectores de incoerências. Sugestões de estilo e reescritas instantâneas. Entre ferramentas digitais que operam conforme o comando do usuário, e a inteligência digital, que aprende e melhora com o tempo, tomando decisões autônomas e criando conteúdos, há um grande impacto ético-estético nas atividades de revisão textual nos contextos escolares e editoriais.  


De um lado, está o docente de língua portuguesa cuja formação está centrada no texto como trabalho, valorizando a reescrita e na interação entre autor e leitor. Nessa perspectiva o texto é resultado de um processo que envolve planejamento, produção, revisão e reformulação, sempre orientado pelas condições de interlocução e pelos efeitos de sentido pretendidos.


Assim, a revisão não se limita à correção de aspectos normativos, mas constitui uma etapa fundamental de reflexão sobre o dizer, na qual o autor reconsidera escolhas linguísticas, reorganiza ideias e ajusta o texto às expectativas do gênero e do contexto comunicativo. 

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Por outro lado, está a IA adotada pela escola pública, passando o texto do estudante por um algoritmo, retornando-o com soluções de melhor clareza, objetividade e adequação. O procedimento parece oferecer soluções eficientes para problemas recorrentes de escrita, em contextos escolares marcados por turmas numerosas e por tempo limitado para acompanhamento individualizado. 


Mas, no âmbito escolar, esse é um apoio a quê? E, ainda, esse é um risco para quem? 


No contexto escolar, em que o estudante é um autor aprendiz, parece que escreve para “agradar” ao algoritmo, sem dialogar com leitores reais. Então, o risco estético surge à medida que se habitua a evitar estruturas que a ferramenta descarta, procura simplificar o vocabulário, enfim, eliminar marcas de subjetividade. 


Arrisca-se a fazer usos artificiais e padronizados de língua, perdendo identidade textual. Paralelamente, o professor “terceiriza” processos delegando à tecnologia a dimensão intelectual e interativa do ensino e aprendizagem de língua-cultura, que ocorre por meio do exercício de leitura atenta, da interpretação contextualizada e da responsabilidade ética do docente.  


Obviamente, no campo editorial, a IA contribui para detectar inconsistências terminológicas, falhas de coerência e coesão global, especialmente, em textos longos como livros didáticos, manuais técnicos, artigos científicos e relatórios institucionais. 

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Uso de ferramentas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT Freepik

Os algoritmos são capazes de rastrear padrões, comparar ocorrências e apontar divergências que escapam ao olhar humano. É tecnologia aliada do rigor. Porém, um texto acadêmico não obedece aos mesmos critérios estilísticos de um texto literário. Um editorial jornalístico não tem a mesma estrutura composicional e estilo de um artigo de opinião escolar. 


Esteticamente, clareza e fluidez são fatores relevantes, mas não podem ser avaliadas de modo generalizado e automatizado. Nesse sentido, a estética da diferença, do desvio criativo e da construção singular tendem a desvanecer-se em meio à intervenção técnica da IA. 


Isso não significa que é preciso rejeitar a tecnologia.  É preciso reposicioná-la nos contextos de revisão escolar e editorial, colocando o discernimento no centro do processo revisional. Algoritmos operam por probabilidade, enquanto revisores humanos operam por julgamento. 


Enquanto a ética da revisão textual requer responsabilidade sobre o sentido produzido, a estética textual necessita de sensibilidade ao efeito, ao ritmo e à intenção comunicativa. E essa é a característica da responsabilidade humana no ato revisional.   


A IA é ao mesmo tempo apoio e risco ético-estético a depender de como é usada, sempre que terceirizar o pensamento, na escola ou no mercado editorial, pois revisar textos é ato de leitura crítica de responsabilidade humana de busca pelo sentido, pela autoria e pela forma. A tecnologia pode acelerar processos, mas a experiência ética e estética da escrita continua sendo condição humana. 




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