O Espírito Santo fechou o primeiro trimestre de 2026 com desemprego de 3,2%, uma das menores taxas do país, segundo pesquisa do IBGE. Mesmo assim, dezenas de milhares de vagas nas empresas capixabas seguem abertas sem candidato. A explicação mais comum para esse paradoxo é a falta de qualificação técnica, mas ela é apenas parte da história.
Uma fatia relevante da força de trabalho brasileira simplesmente não está disponível para o emprego formal, esteja ela qualificada ou não. Segundo o IBGE, a taxa de informalidade no país ficou em 37,5% no trimestre encerrado em janeiro de 2026, envolvendo 38,5 milhões de pessoas. Desse total, 26,2 milhões trabalham por conta própria, um contingente que cresceu 3,7% em um ano. Para uma empresa com vaga formal em aberto, esse trabalhador está tão indisponível quanto se estivesse desempregado.
Parte dessa migração tem endereço certo, os aplicativos. Segundo pesquisa do Cebrap, o número de motoristas que trabalham por aplicativo cresceu 35% entre 2022 e 2024, e o de entregadores, 18%, somando hoje cerca de 2,2 milhões de trabalhadores nessas duas frentes.
A própria pesquisa indica o motivo, para 58% dos motoristas, esse já é o único rendimento, e a permanência é justificada por ganhos melhores, autonomia e flexibilidade de horário.
Isso significa que o trabalho por aplicativo não é apenas mais uma opção de renda. Para boa parte desse público, ele compete diretamente com a vaga CLT que a empresa está tentando preencher. Em muitos casos, vence essa disputa não pelo salário, mas pelo modelo de vínculo oferecido.
O efeito prático já aparece no Espírito Santo. Obras de infraestrutura como a duplicação da BR-101 recorrem a trabalhadores de outros estados por falta de mão de obra disponível na região, e a avicultura e a suinocultura capixabas já empregam cerca de 300 trabalhadores imigrantes, principalmente venezuelanos, para sustentar postos que o mercado local não consegue preencher. São setores em que a exigência técnica é baixa, o que reforça que o gargalo não é apenas de qualificação.
Essa competição também tem uma frente jurídica em aberto. O julgamento no STF sobre o vínculo empregatício de motoristas e entregadores de aplicativo, com repercussão geral reconhecida e impacto sobre cerca de 10 mil processos em tramitação no país, chegou a ser pautado para junho de 2026, mas foi retirado de pauta pelo presidente da Corte a pedido do MPF e da DPU, que pediram prazo para avaliar os efeitos da convenção recém-aprovada pela OIT sobre trabalho em plataformas digitais.
Nenhum ministro votou até o momento, e ainda não há nova data prevista, mas o resultado, quando vier, deve balizar o modelo de contratação de toda essa categoria, para o bem ou para o mal de quem depende dela para operar.
Soma-se a isso o avanço do MEI como porta de entrada preferencial para quem empreende, segundo dados do Sebrae, os microempreendedores individuais já respondem por 78% dos novos negócios abertos no Brasil em 2026. Para muita gente, abrir um MEI se tornou mais simples e mais atraente do que buscar uma vaga com carteira assinada, o que tira do mercado formal parte do público que, há uma década, seria candidato natural a um emprego CLT.
Há ainda um debate público sobre se programas de transferência de renda influenciam essa equação na margem, desestimulando a busca por emprego formal em faixas de renda mais baixas. A literatura econômica sobre o tema não é unânime, com estudos apontando efeitos distintos a depender do desenho do programa e da região analisada. Não é, portanto, um fator que se possa afirmar como causa isolada da escassez, mas um elemento do debate que segue em aberto.
A esses fatores concorrenciais soma-se o componente demográfico já conhecido, o Brasil deve atingir o pico populacional em 2041, e a população com 65 anos ou mais cresceu mais de 57% na última década, segundo o IBGE. Com um contingente cada vez menor de novos entrantes no mercado de trabalho, a disputa por qualquer trabalhador, qualificado ou não, tende a se intensificar, não a se resolver sozinha.
Para as empresas capixabas, a leitura prática é que qualificar e reter talento resolve apenas parte do problema. A outra parte exige repensar o próprio desenho do vínculo de trabalho oferecido, horários mais flexíveis, remuneração por produtividade, comunicação mais clara sobre o que o emprego formal ainda oferece e o aplicativo não, como estabilidade, benefícios e proteção previdenciária.
A escassez de mão de obra, por esse ângulo mais amplo, deixa de ser um problema apenas de formação técnica e passa a ser um problema de atratividade do próprio modelo de emprego formal.