A todo momento escutamos alguém usar a expressão ‘revitalização do Centro’, dita pelos mais diversos sujeitos: o político com seu projeto, o empreendedor imobiliário ou aquele que, querendo se dizer cool, vai ao boteco famoso ou ao evento da moda.
Revitalizar pressupõe trazer vida. Mas não há vida no centro?
O recorte segregado da cidade faz com que a parcela que vive nos locais prestigiados do momento ache que não há vida nos outros locais, pois a vida ocorre ali, onde eles moram. E aí também se diz que o Centro está morto. E se o Centro está morto, então é preciso revitalizá-lo.
O centro de toda cidade, principalmente das capitais, é um território múltiplo, porque, ao mesmo tempo em que a cidade se formou a partir dali, guardando nessa região os vestígios antigos de sua formação, prédios históricos, teatros, museus, construções significativas de um período, de uma época, é também um bairro. Onde moram e vivem seus moradores.
A busca de uma ‘revitalização’ está relacionada a esse resgate histórico, à preservação de uma cidade que não existe mais nos outros locais, como se quiséssemos ser transportados para um tempo histórico, de memórias e de afetos.
A cidade moderna se transformou em uma mercadoria, em um produto muito disputado. Ocorre que, diferente dos produtos normais, a terra não é reprodutível; logo, os seus territórios se esgotam, daí ser preciso avançar para mais um território.
Nesse movimento percebemos essa dinâmica da cidade e dos agentes que lucram com essa mercantilização, transformando novos locais em lugares de prestígio ou selecionando locais que se tornarão o bairro do momento. Onde tudo acontece, onde a ‘vida’ da cidade acontece.
Mas e o centro? O centro é uma fotografia viva de uma cidade que não se transformou, que ainda está ali, preservada, apesar de seus prédios abandonados, de imóveis em ruínas, de um descuido de seus bens, que se vê claramente pela ausência de preservação.
Mas é ali que podemos dizer e apontar a escola em que estudamos, o parque que frequentávamos, o cinema de rua a que íamos quando jovens, lembrar dos filmes a que assistimos e das extensas filas nas calçadas, as lojas em que nossos pais compravam, a comida daquele restaurante que ainda está lá.
Ou seja, é ali que estão a nossa memória e o nosso afeto. É quando nos sentimos pertencendo a uma cidade onde as memórias são comuns.
Pois o restante da cidade se transforma na velocidade do consumo: o bairro de prestígio de hoje não será mais o de amanhã, aquela loja será demolida para a construção de um prédio, aquela casa em que morávamos já não existirá mais, pois um novo empreendimento surgirá no lugar, aquele cerimonial a que fomos em nossa primeira festa de 15 anos virará um shopping.
E isso tira o nosso sentimento de fazer parte de algo comum, de algo que nos une.
Então não é sobre revitalização do centro que estamos falando: é sobre o pertencimento de sermos moradores de uma mesma cidade.