Qual impacto uma peça de teatro pode causar na plateia? Alegria? Medo? Nostalgia? Reflexão? Perdão? Muitos são os sentimentos que uma montagem desperta no público, seja uma comédia, seja uma tragédia, seja um musical. Da cortina para trás, acredite, os impactos são muito maiores e ainda mais importantes.
A economia criativa - as artes cênicas se incluem aqui - criou mais de 180 mil postos de trabalho no Brasil. Dá para ir além: o mercado cultural gera uma renda anual de US$ 2,25 bilhões e é responsável por cerca de 30 milhões de empregos em todo o mundo.
Nesses 17 anos produzindo peças de teatro pelo Brasil, temos nos dedicado a profissionalizar o mercado, especialmente no Espírito Santo, onde nascemos e onde nossa paixão pela cultura nasceu. Mas desde o início percebemos uma lacuna na valorização da cultura como um setor essencial, não apenas para o desenvolvimento intelectual e educacional, mas também como um motor econômico que gera empregos e renda.
Em muitas partes do Brasil, incluindo o Espírito Santo, a cultura ainda não é vista como uma necessidade vital, diferentemente de outras capitais mais desenvolvidas como Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.
Nosso objetivo sempre foi mostrar que a cultura é um negócio - apesar dos números já mostrarem isso, é preciso ecoar essa voz. Segundo dados do Observatório Itaú Cultural, em 2020, a economia da cultura e das indústrias criativas (ECIC) do Brasil movimentou R$ 230,14 bilhões, equivalente a 3,11% do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos, maior que o da indústria automobilística, por exemplo, que registrou um valor de 2,1% no mesmo período.
Além disso, o levantamento também aponta que em 2022 o setor gerou 308,7 mil novos postos de trabalho em comparação com 2021. Foram 7,4 milhões de empregos formais e informais no país, o que equivale a 7% do total dos trabalhadores da economia brasileira. E, ademais, a cultura é fundamental para o desenvolvimento cognitivo e educacional, influenciando diretamente todos os aspectos de nossas vidas, desde o vestuário até a linguagem e o design dos objetos que usamos diariamente.
No entanto, a cultura enfrenta desafios significativos. Muitos a consideram supérflua, uma visão que impede o reconhecimento de sua importância. Um bom exemplo é a Constituição Brasileira, que obriga o governo federal a fornecer acesso à cultura, assim como à saúde, educação e segurança.
Vejam: todos se encontram em sinal igual de importância - ao menos no papel. Ainda assim, estamos em um momento de desvalorização cultural, onde muitos não percebem a interconexão entre cultura e desenvolvimento social.
A cultura tem seu próprio orçamento, mas ele é baixo. Mesmo no contexto atual, com os maiores investimentos em cultura já realizados pelo governo estadual e federal, ainda representa um percentual reduzido. Devido às fake news, muitas pessoas comentam: "Ah, teve uma peça de teatro, mas o hospital está com problemas".
No entanto, é importante destacar que existem diferentes áreas de investimento. Não se pode simplesmente transferir o dinheiro da cultura para a saúde ou educação, pois todos os setores essenciais para o país têm seus próprios orçamentos. A pasta da cultura possui um percentual pequeno, mas é crucial que a população entenda o quanto a vivência cultural é fundamental e essencial para todos. É necessário lutar por mais investimentos, pois ainda estamos muito defasados nesses aspectos.
A dependência das leis de incentivo, como a Lei Rouanet, é uma realidade para aqueles que trabalham com cultura. Essas leis não são exclusivas do setor cultural; outros setores, como o de eletrodomésticos e transporte, também recebem incentivos fiscais.
A Lei Rouanet, em particular, é uma política governamental de renúncia fiscal que permite que produtores culturais captem recursos de empresas privadas para financiar seus projetos. É uma falácia o entendimento de que a Lei Rouanet distribui dinheiro - muito pelo contrário.
Neste cenário, nossa produtora e o Circuito Nacional de Teatro no Espírito Santo nasceram quase simultaneamente, aproveitando - felizmente! - essas leis de incentivo. Apesar das críticas e desinformação, é crucial entender que o dinheiro captado por meio da Lei Rouanet não é do produtor cultural, mas sim do projeto. Cada centavo gasto é rigorosamente auditado, garantindo transparência e eficiência na utilização dos recursos.
Tomando o Espírito Santo como recorte, a estrutura de apoio por meio de leis de incentivo à cultura ainda está em desenvolvimento em comparação com outros estados como São Paulo, que têm programas como o PROAC (Programa de Ação Cultural), que já é bastante consolidado. O Programa permite a dedução de ICMS por parte das empresas que patrocinam iniciativas culturais e é amplamente utilizado por produtores culturais para financiar suas atividades.
Nos últimos anos, um grande marco para a cultura do Espírito Santo, foi a criação da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), mas o que acontece é que dentro do Sudeste o nosso Estado é o que menos capta recursos via lei Rouanet. Ou seja, as empresas aqui investem muito pouco. São poucas as que investem em projetos incentivados via lei Rouanet.
O empresário local precisa prestar mais atenção a essa questão, pois ele também tem uma responsabilidade social perante a sua comunidade. Não se trata apenas de lucro; ele deve investir na sociedade. Vale ressaltar que, na verdade, esse investimento é vantajoso para a empresa, pois resulta em abatimentos fiscais.
Em Vitória, há a lei Rubem Braga. Outras cidades capixabas tinham suas próprias leis, como a lei de fomento cultural na Serra e a lei João Bananeira em Cariacica. Elas são ferramentas importantes para diversas áreas culturais, não apenas teatro, mas também literatura, manutenção de museus, entre outros. A implementação de programas como esses podem ser crucial para fortalecer a produção cultural local.
A cultura, assim como outras áreas, sofre com a falta de investimentos e espaços adequados. No Espírito Santo, por exemplo, há uma escassez de teatros e empresas dispostas a investir na Lei Rouanet. Além disso, a cultura enfrenta uma desvalorização histórica, onde artistas muitas vezes são desconsiderados em discussões políticas e sociais.
Como se vê, a desvalorização da cultura é uma questão que precisa ser abordada com urgência. A pandemia mostrou claramente o papel essencial da cultura em nossas vidas, desde livros e séries até lives e músicas. A cultura nos oferece não apenas entretenimento, mas também um espaço para reflexão e transformação social.
A batalha pelo reconhecimento e valorização da cultura é contínua. A cultura não é apenas entretenimento, é uma parte integral de nossa identidade e sociedade. Precisamos desmistificar essa visão limitada e reconhecer a cultura como uma força vital para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Assim, poderemos construir uma sociedade mais consciente, crítica e conectada com suas raízes culturais.
A WB, por exemplo, sempre adotou uma visão global e abrangente do mercado, sem se limitar a uma perspectiva restrita. Nosso objetivo sempre foi elevar o Espírito Santo ao nível de São Paulo e Rio de Janeiro, com grandes investimentos, amplos espaços e recursos substanciais.
Por isso, foi necessário manter uma visão macro de nossa área e mercado. Mas, devido à escassez de espaços, teatros e investimentos, tivemos que nos expandir e buscar oportunidades fora daqui. Isso também reflete na trajetória de muitos artistas locais, que muitas vezes precisam deixar o Estado para serem reconhecidos, já que a própria região não oferece possibilidades suficientes de crescimento.
Os números, pujantes como uma bela peça de teatro, já mostram isso. A cultura faz sua parte, para além da ribalta, da coxia e do aplauso final.