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É subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas

Cuidar para prevenir: por que criamos a Rede Abraço Mulher no ES

Enfrentar o feminicídio exige coragem para punir quando necessário, mas também coragem para inovar, prevenir e cuidar

  • Carlos Augusto Lopes É subsecretário de Estado de Políticas sobre Drogas
Publicado em 31/03/2026 às 10h00

Nos últimos anos, o Brasil avançou no enfrentamento da violência contra as mulheres, com a tipificação do feminicídio, o fortalecimento das delegacias especializadas e a ampliação das medidas protetivas. São conquistas importantes. No entanto, é preciso reconhecer que a repressão, embora necessária, geralmente ocorre depois que a violência já se manifestou e, muitas vezes, tarde demais.

Se queremos reduzir de forma consistente a violência letal contra mulheres, é indispensável olhar para os fatores que antecedem o crime. Muitas tragédias são precedidas por vulnerabilidades que se acumulam ao longo do tempo e que permanecem, muitas vezes, invisíveis às instituições.

A literatura especializada mostra que mulheres em situação de uso abusivo de álcool e outras drogas enfrentam níveis mais intensos de estigmatização social. Diferentemente dos homens, o julgamento moral costuma ser mais severo, o que dificulta a busca por ajuda e aprofunda o isolamento.

Diversos estudos também indicam que uma parcela significativa dessas mulheres vive ou já viveu situações de violência doméstica. Em muitos casos, o uso problemático de substâncias surge como tentativa de lidar com traumas e sofrimentos psíquicos acumulados. Em outros, a violência se intensifica em contextos familiares marcados pelo consumo abusivo de álcool por parte dos parceiros.

A essas vulnerabilidades somam-se barreiras concretas de acesso ao cuidado. Muitas mulheres são responsáveis quase exclusivamente pelos filhos, dependem financeiramente do agressor ou temem perder a guarda das crianças. Nesse contexto, a dependência química frequentemente se entrelaça com dependências econômicas e emocionais, mantendo mulheres em relações violentas pela ausência de alternativas reais de autonomia.

Foi a partir dessa compreensão que o Governo do Espírito Santo estruturou a Rede Abraço Mulher, estratégia do Programa Rede Abraço voltada ao cuidado e acolhimento de mulheres e meninas a partir de 14 anos em situação de uso problemático de álcool, outras drogas e comportamentos aditivos.

O atendimento é especializado e realizado em ambientes acolhedores e livres de revitimização, com prioridade no acesso aos serviços e construção compartilhada do Plano Individual de Atendimento. Iniciativas como Espaço Kids, Vale Social para transporte e ações de dignidade menstrual reforçam o caráter ampliado do cuidado.

A estratégia atua de forma integrada com outras políticas públicas, articulando-se com os Centros Margaridas, o Sistema Único de Assistência Social, a Rede de Atenção Psicossocial e, quando necessário, com o sistema de justiça. Sempre que situações de risco são identificadas, a rede de proteção é acionada.

Outro eixo central é a promoção da autonomia econômica e social. Por meio da Unidade de Reinserção Social e de parcerias com programas de qualificação profissional, as mulheres podem acessar cursos, construir projetos de vida e ampliar suas oportunidades de geração de renda.

A política também incentiva projetos comunitários voltados para mulheres, apoia pesquisas científicas conduzidas por pesquisadoras e estabelece mecanismos institucionais de proteção às servidoras da Rede Abraço contra situações de assédio ou ameaças.

Violência contra a mulher, feminicídio
Violência contra a mulher. Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A lógica que sustenta a estratégia é clara: prevenir a violência letal exige agir antes do desfecho extremo. Quando o Estado chega antes, oferecendo cuidado, escuta qualificada, proteção e oportunidades, reduz-se a probabilidade de que conflitos evoluam para tragédias.

A Rede Abraço Mulher não substitui as políticas de repressão ao crime; ela as complementa. Atua justamente onde a violência começa a se formar: nas vulnerabilidades não tratadas, nos sofrimentos invisíveis e nas dependências que permanecem sem cuidado.

Enfrentar o feminicídio exige coragem para punir quando necessário, mas também coragem para inovar, prevenir e cuidar. No Espírito Santo, escolhemos fazer as duas coisas. Porque proteger as mulheres é proteger o presente, e fortalecer sua autonomia é construir um futuro com menos violência e mais vida.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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