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Roberto Carlos

Artigo de Opinião

É geógrafo, mestre em Administração Estratégica do Setor Público e Privado e professor
Roberto Carlos

Copa do Mundo 2026: quando a geopolítica entra em campo

Sediar uma Copa do Mundo em três países exige um nível de cooperação internacional raramente observado em outros eventos globais
Roberto Carlos
É geógrafo, mestre em Administração Estratégica do Setor Público e Privado e professor

Publicado em 25 de Junho de 2026 às 15:41

Publicado em 

25 jun 2026 às 15:41

A Copa do Mundo de Futebol, o evento esportivo mais assistido do planeta, vai muito além das quatro linhas. Ela se conecta diretamente com as engrenagens da política, da economia e da sociedade. 


A cada edição, decisões diplomáticas, interesses comerciais e relações internacionais influenciam aspectos que vão desde a escolha das sedes até a participação de atletas e torcedores.


Nos últimos anos, a preparação para grandes competições esportivas evidenciou como questões geopolíticas podem impactar o futebol. Regras migratórias, exigências de vistos e restrições de entrada adotadas por países anfitriões, muitas vezes justificadas por razões de segurança ou por políticas nacionais, podem criar obstáculos para participantes de determinadas nacionalidades. 

Vista aérea do Estádio Azteca, que recebera jogos de Copa do Mundo pela terceira vez
Vista aérea do Estádio Azteca, que recebe jogos de Copa do Mundo pela terceira vez Getty Images - Hector Vivas

Embora cada país tenha o direito de definir suas normas de ingresso, eventos de alcance global exigem mecanismos que garantam a participação esportiva acima de divergências políticas. Para que a Copa seja verdadeiramente universal, é importante que os países-sede adotem procedimentos especiais capazes de assegurar a presença de atletas, delegações e profissionais credenciados.


As sanções internacionais impostas a países também ajudam a ilustrar essa relação entre política e esporte. Em muitos casos, medidas destinadas a pressionar governos acabam produzindo efeitos indiretos sobre atletas e torcedores, que pouco ou nenhum poder possuem sobre decisões diplomáticas. 


O resultado é um debate recorrente: até que ponto disputas entre Estados devem interferir em competições que têm como princípio a integração entre os povos?


Buscando ampliar essa integração, a Fifa decidiu aumentar o número de seleções participantes da Copa do Mundo. A proposta pretende ampliar a representatividade geográfica do torneio, oferecendo oportunidades a países que historicamente tinham poucas chances de classificação. 


Sob essa perspectiva, a expansão das vagas contribui para tornar a competição mais diversa e aproximar novas culturas do principal evento do futebol mundial.


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Entretanto, a ampliação da Copa também traz desafios. O aumento do número de seleções exige mais infraestrutura, mais estádios, mais deslocamentos e uma coordenação logística cada vez mais complexa. 


A edição organizada por Canadá, Estados Unidos e México exemplifica essa nova realidade. Ao mesmo tempo, surgem debates sobre o equilíbrio técnico da competição e sobre os limites do crescimento do torneio.


Outro aspecto que merece atenção é o peso crescente dos interesses econômicos. A Copa do Mundo movimenta bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, patrocínios e turismo. Esse volume de recursos é fundamental para viabilizar o evento, mas também gera questionamentos sobre o equilíbrio entre os objetivos esportivos e os interesses comerciais. 


Quando ingressos, hospedagem e serviços associados se tornam excessivamente caros, parte da população fica afastada de uma celebração que deveria ser acessível ao maior número possível de pessoas.


Por isso, a democratização do futebol não deve se limitar à ampliação do número de seleções participantes. Ela também precisa alcançar o torcedor comum. Isso envolve estimular políticas de ingressos com faixas de preços mais acessíveis, ampliar programas de sorteio e distribuição de entradas populares, fortalecer transmissões abertas e promover exibições públicas em praças, centros comunitários e espaços esportivos. 


Sediar uma Copa do Mundo em três países exige um nível de cooperação internacional raramente observado em outros eventos globais. Questões relacionadas à segurança, mobilidade, infraestrutura e comunicação precisam ser coordenadas entre diferentes governos e instituições.


Esse esforço conjunto demonstra que, mesmo em um cenário internacional marcado por conflitos, crises humanitárias e disputas econômicas, ainda é possível construir projetos comuns.


O futebol não resolve os problemas do mundo, mas ajuda a evidenciar tanto nossas diferenças quanto nossa capacidade de cooperação. Ao observarmos a próxima Copa do Mundo, vale a pena olhar além dos resultados em campo. 


O verdadeiro legado do torneio estará na sua capacidade de aproximar povos, reduzir barreiras e ampliar oportunidades de participação. Quanto mais acessível e inclusiva for essa grande festa do esporte, mais ela cumprirá o papel que a tornou um fenômeno global.


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