Acolher a escolha democrática do povo é um ato de civilidade. Para quem diz ser seguidor e seguidora de Jesus, é também um compromisso com a paz. A democracia não se sustenta apenas pelo direito de votar, mas pela disposição de reconhecer os resultados, respeitar as instituições e conviver com as diferenças.
Lula foi eleito e tem o dever de governar para todos os brasileiros e brasileiras, com honestidade, responsabilidade e inteligência. Sua tarefa é contribuir para a construção de um país justo e próspero, especialmente para aqueles que vivem em condições de maior vulnerabilidade e desassistência. O exercício do poder exige compromisso com o bem comum.
A Igreja, por sua vez, não deve confundir sua missão com a disputa pelo poder político. Sua vocação é testemunhar o Reino de Deus, o que implica exercer uma consciência profética diante do Estado: denunciar injustiças, defender os mais vulneráveis e cobrar dos governantes coerência entre suas responsabilidades públicas e o compromisso com a dignidade humana. Essa missão não termina com uma eleição, tampouco depende de quem ocupa a Presidência da República.
É justamente por isso que a postura de pastores e líderes religiosos importa tanto. Quem anuncia o Evangelho não pode transformar o púlpito em instrumento de ressentimento, alimentar a hostilidade entre cidadãos ou estimular a desconfiança nas instituições sem fundamento. A liderança cristã deve contribuir para a reconciliação, não aprofundar as divisões; promover o diálogo, não legitimar o ódio.
Isso não significa abrir mão da crítica política. Governos precisam ser fiscalizados, decisões devem ser questionadas e injustiças, denunciadas. Mas há uma diferença fundamental entre exercer oposição democrática e alimentar o caos; entre discordar de um resultado e recusar as regras que tornam possível a convivência democrática.
As bem-aventuranças nos lembram que os pacificadores são chamados filhos de Deus. Essa afirmação não é um convite à passividade diante da injustiça, mas uma convocação à responsabilidade. Promover a paz exige coragem para enfrentar a violência, disposição para reconhecer a dignidade do outro e compromisso com a verdade, mesmo quando ela contraria nossas preferências políticas.
Em tempos de polarização, a pergunta que se impõe é simples: nossas palavras e ações ajudam a construir uma sociedade mais justa ou alimentam as hostilidades que nos afastam uns dos outros?
Seguir Jesus também significa assumir a responsabilidade pelo mundo que compartilhamos. Cuidemos uns dos outros e sejamos testemunhas das bem-aventuranças, dentro e fora das igrejas.