Quando pensamos no café, a primeira imagem costuma ser a da produção agrícola ou a famosa xícara de café que acompanha o início do dia de milhares de pessoas. Mas a principal riqueza do café vai muito além.
Cada saca produzida movimenta uma extensa cadeia econômica que envolve indústria, logística, comércio, serviços, turismo e inovação. No Espírito Santo, entender essa engrenagem é compreender uma das maiores forças de desenvolvimento da economia estadual.
Os números ajudam a dimensionar essa relevância. De acordo com o relatório do Connect Fecomércio-ES “Especial Café – Retrato da economia”, o Espírito Santo é o maior produtor brasileiro de café conilon, responsável por cerca de 65% da produção nacional, e o segundo maior produtor de café do país.
São aproximadamente 425 mil hectares cultivados, dos quais quase 287 mil dedicados ao conilon, além de cerca de 60 mil propriedades produtoras e 131 mil famílias diretamente envolvidas na atividade.
Não por acaso, dois terços das propriedades agrícolas capixabas cultivam café, presente em todos os municípios do Estado, com exceção de Vitória. Além da relevância econômica, a cafeicultura possui forte dimensão social. Cerca de 73% dos produtores pertencem à agricultura familiar, o que amplia o impacto da atividade sobre a geração de renda e a permanência das famílias no meio rural.
Mas a verdadeira dimensão econômica da cafeicultura aparece quando olhamos para além da porteira. O café percorre uma longa cadeia de valor. Depois da produção, passa pelo beneficiamento, armazenagem, transporte, industrialização, exportação, comercialização e chega ao consumidor por meio de cafeterias, restaurantes, hotéis, supermercados e milhares de estabelecimentos comerciais. Em cada etapa, incorpora serviços, conhecimento, tecnologia, empregos e renda.
É justamente essa capacidade de integrar diferentes atividades que faz do café um poderoso multiplicador econômico. O valor agregado cresce continuamente ao longo da cadeia. Uma saca produzida na propriedade rural movimenta transportadoras, cooperativas, corretoras, armazéns, exportadores, indústrias, cafeterias, distribuidores, profissionais especializados e inúmeros outros segmentos. Cada elo amplia a riqueza gerada e distribui oportunidades por diferentes regiões do Estado.
Um exemplo simples ilustra essa dinâmica: o preço de uma xícara de café servida em um aeroporto ou em uma cafeteria especializada é muitas vezes superior ao valor do café na origem. Essa diferença não representa apenas margem comercial. Ela reflete o trabalho de uma cadeia inteira, composta por logística, torrefação, embalagem, marketing, atendimento, experiência do consumidor, aluguel, tecnologia, capacitação profissional e tantos outros serviços que transformam um grão em uma experiência de consumo.
Essa característica torna a cafeicultura uma atividade capaz de distribuir renda muito além das regiões produtoras. O café movimenta economias locais, potencializa pequenos negócios, gera empregos temporários e permanentes e impulsiona setores que, muitas vezes, nem sequer são associados diretamente ao agronegócio.
Segundo o Relatório do Connect Fecomércio-ES, durante a colheita de 2025, o cultivo do café respondeu por mais de oito mil novos postos formais de trabalho apenas entre abril e maio, o maior saldo para o período desde o início da série histórica do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Isso demonstra como a atividade exerce papel decisivo na dinâmica econômica do interior capixaba.
Ao mesmo tempo, novas oportunidades surgem impulsionadas pelas transformações no comportamento do consumidor. O mercado mundial valoriza cada vez mais qualidade, origem, rastreabilidade, sustentabilidade e experiências de consumo.
Essa tendência abre espaço para cafés especiais, torrefações locais, marcas próprias, turismo rural, cafeterias de experiência e novos modelos de negócios que ampliam significativamente a retenção de valor dentro do Espírito Santo.
Valor agregado
Temos condições privilegiadas para aproveitar esse cenário. O Estado reúne liderança absoluta no conilon, produção reconhecida de arábica nas regiões de montanha, forte presença da agricultura familiar, tradição produtiva, parque industrial de destaque e crescente profissionalização da cadeia.
São ativos que permitem avançar da produção de commodities para uma economia cada vez mais baseada em valor agregado.
Isso passa pelo fomento da industrialização, pela ampliação da exportação de produtos processados, pelo crescimento do mercado de café solúvel, pela expansão do turismo de experiência e pelo incentivo à inovação em toda a cadeia produtiva. Quanto mais etapas do processo permanecem no Espírito Santo, maior é a geração de renda, empregos e arrecadação para os municípios.
O café sempre foi uma das maiores riquezas do Espírito Santo. Agora, o desafio é enxergá-lo em toda a sua dimensão econômica. Não apenas como um produto que cultivamos, mas como uma atividade capaz de integrar setores, estimular inovação, gerar oportunidades e impulsionar o desenvolvimento regional.
O Espírito Santo não produz só café, produz valor. E compreender essa cadeia em toda a sua extensão é fundamental para construir um futuro ainda mais competitivo para a economia capixaba.