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Denise Klein

Artigo de Opinião

Transparência

Com hiperconectividade, integridade de pessoas e empresas é mais exigida

Preço por não se envolver, posicionar e empatizar, ignorando a diversidade de realidades, será cada vez mais alto, bem como o das iniciativas que visem somente à promoção momentânea, o oportunismo
Denise Klein

Publicado em 06 de Agosto de 2020 às 15:00

Publicado em 

06 ago 2020 às 15:00
Diversidade, planeta, globo, celular, humanidade, pessoas
Diversidade, planeta, globo, celular, humanidade, pessoas Crédito: Pixabay
Nas últimas semanas um empresário do ramo de eletrodomésticos foi acusado de sonegação fiscal; assessores de deputados foram denunciados por divulgação de conteúdos enganosos; uma influenciadora fitness perdeu contratos após festa entre amigos na pandemia; uma indústria suspendeu o lançamento de esponja de aço por ter conotação racista; uma grife carioca foi chamada de oportunista por vender máscaras por R$ 147; e uma profissional foi demitida após desrespeitar um fiscal no Rio de Janeiro.
Esses fatos têm algo em comum: impactaram a reputação de políticos, celebridades, marcas e cidadãos comuns. E, além disso, revelam que a hiperconectividade, o fato de estarmos conectados por dispositivos que divulgam vídeos e áudios em tempo real, gera uma hipertransparência que não faz acepção de pessoas. Narrativas são descontruídas rapidamente e nem ministros em reuniões sigilosas escapam.
Paralelamente a isso, a indignação provocada pelos fatos indica que a integridade de empresas e pessoas vem sendo mais exigida. Aquela capacidade de ter coerência, fazer o certo e casar o storytelling com o storydoing não é opcional, ou nunca deveria ter sido. E isso é muito bem-vindo à medida que, ainda que impositivamente, produza um choque ético em setores políticos, empresariais, judiciais e até na esfera mais pessoal do ser humano.
Outro aspecto é que o preço por não se envolver, posicionar, empatizar e continuar cuidando somente dos seus egoísticos interesses, ignorando a diversidade de realidades, será cada vez mais alto, bem como o das iniciativas que visem somente à promoção momentânea, caracterizando oportunismo.
Entre tantas mudanças que percebemos com otimismo no mundo corporativo, muitas apontam para um melhor normal, com mais cidadania corporativa, onde sai o discurso de melhor empresa do mundo e entra o de melhor empresa para o mundo. Movimentos como o Stop Hate for Profit, de boicote de multinacionais ao Facebook para exigir ação frente a posts racistas, e da carta assinada por fundos de investimento enviada às embaixadas brasileiras relatando preocupação com o desmatamento da Amazônia, indicam algum protagonismo empresarial frente a questões urgentes, usando a força econômica para o bem, ainda que pela dor.
Obviamente, isso não é exatamente fruto de bondade, mas uma questão de sobrevivência dos negócios. O mundo – ainda mais após essa aceleração de mudanças de mentalidade – pede menos mercado e mais sociedade, menos espuma e mais cooperação, um capitalismo mais consciente e ativista.
Nesse contexto, inevitavelmente ganha força a confiança como uma importante moeda. Conforme revela o relatório Edelman Trust Barometer 2020, na hora de comprar, a confiança na marca é a terceira consideração mais relevante para o brasileiro, atrás do preço e da reputação, atributo construído a longo prazo e com ações e discursos coerentes, enfim, com integridade.
Não nos enganemos que há um caminho longo a percorrer nesse aspecto não só no Brasil, mas em todo o mundo, onde é escassa a confiança entre nações, a cooperação ou liderança internacional e os comportamentos coletivos, mesmo quando tudo se faz tão vital, como nas pandemias; onde se tenta desconstruir dia a dia a confiança na ciência, nos especialistas e uns nos outros; onde reinam as guerras de narrativas e as polarizações. Tudo isso mina a confiança, mas a torna ainda mais rara e por isso valiosa.
*A autora é jornalista e diretora da Tríade Comunicação
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