Religião é rede simbólica perpassada por memórias, metáforas, ritos e narrativas, cujo sistema interpreta o mundo a partir do conjunto de valores e saberes partilhados. Por vezes, o fiel se sente na obrigação de defender seus dogmas e verdades irredutivelmente, ao mesmo tempo em que precisa proteger seus líderes.
No Brasil, temos testemunhado um tipo novo de fenômeno religioso: a bolsorreligiosidade. Em termos gerais, essa nova expressão de fé tem algumas características: moralismo intolerante, messianismo acrítico, monofonia, sacrificialismo violento, antipatia à ciência, dualismo e verborragia com indícios de pós-verdade.
A bolsorreligiosidade defende conceitos pouco realistas de família tradicional, o que alimenta intolerância contra a pluralidade e modelos não adequados ao padrão idealizado. Por vezes, tem relações sincréticas com evangélicos fundamentalistas, o que alimenta um moralismo intolerante. É messianicamente acrítica, porque preserva um discurso tipicamente sebastianista.
Bolsonaro é aceito como modelo de salvador, o qual representa a descontinuidade e novidade político-religiosas. O seu messias é blindado pela infalibilidade, o que desenvolve um sistema idólatra. Com pouco espaço para o contraditório, essa expressão religiosa é monofônica. Ou seja, não abrem espaços para o diálogo. A eliminação inquisitorial é seu modus operandi no trato com as heterodoxias. Consequentemente, tem traços da religiosidade sacrificial-violenta.
Como as religiões primitivas, a bolsorreligiosidade tem na linguagem e práticas violentas a proteção de seu sistema de crenças. Qualquer ameaça é passível de punição. Comum nas expressões religiosas mais fundamentalistas, costuma relativizar o valor da ciência ou mesmo negá-la. Em sintonia com a mentalidade medieval, essa expressão religiosa repetidamente desqualifica o saber científico. Na bolsorreligiosidade, o obscurantismo e a ignorância são tratados como provas de fé e fidelidade.
Naturalmente, nessa perspectiva, o mundo deixa de ser social e historicamente complexo, pois é dividido de maneira maniqueísta e dualista: nós x eles, bons x maus, cidadãos de bem x comunistas, fiéis ao Messias x marxistas. E, como estratégia de legitimação das incoerências, usam-se expressões verborrágicas perpassadas por tendências comuns da “pós-verdade”: o real e verdadeiro serão sempre modelados pelas crenças do seu líder, mesmo que não haja qualquer fonte legítima ou plausível.
Por ser fortemente retórica, as afirmações aceitas pelos seus fiéis não dependem de comprovação. Por essa razão, precisamos, mais do que nunca, preservar no Brasil a inegociável separação entre religião e Estado.
*O autor é cientista da Religião, professor, pastor e escritor