Quem trabalha diariamente na linha de frente das vulnerabilidades sociais acaba criando uma espécie de armadura como condição para seguir adiante. No entanto, existem momentos em que a realidade fura qualquer proteção e nos atinge em cheio, lembrando-nos da urgência de repensar quem somos como sociedade.
Lembro-me de um desses momentos, durante o atendimento a um adolescente, que havia sido apreendido por porte de arma de fogo.
Ao conversarmos sobre o que o levara àquela situação, a resposta do jovem veio com uma naturalidade que me causou um desconforto profundo: ele precisava “trabalhar”. O choque não estava na palavra em si, mas no contexto que a justificava.
Aquele menino, que para a lei ainda deveria estar sob proteção integral, já carregava a responsabilidade direta por quatro filhos. Na sua visão de mundo, tragicamente distorcida por uma realidade precoce, a arma era apenas uma ferramenta para garantir o sustento de crianças que, como ele, já nasciam marcadas pela exclusão.
Naquele instante, deixei que a mãe e a mulher guiada por valores de compaixão assumissem o pensamento. Foi impossível não sentir uma perplexidade dolorosa. Como chegamos a esse ponto? Como mãe, tentei imaginar o rastro de omissões do Estado e as camadas de violência estrutural que moldaram a vida de um menino que deveria ter tido o ordenamento jurídico como um escudo protetor, mas que, na prática, encontrou apenas o vazio.
A promessa constitucional de “prioridade absoluta” para a infância parecia, naquele cenário, uma frase de efeito tristemente ausente.
Minha preocupação se estendeu imediatamente para as quatro crianças geradas sob esse manto de vulnerabilidade. Sem uma intervenção que seja assistencial, humana e sistêmica, elas estão fadadas a girar na mesma engrenagem de invisibilidade e violência. É um ciclo que nos obriga a refletir: onde falhamos como sociedade?
No exercício da minha função como defensora pública, o desafio se revelou imenso. O Direito, em casos assim, não pode ser apenas uma régua de punição. É imperativo lutar para a transformação de vidas e para o resgate da cidadania e da dignidade. Mas a pergunta que não cala é como efetivar essa transformação?
Ao mesmo tempo, não ignoro a minha condição de cidadã. Sinto o medo que percorre as ruas e me solidarizo profundamente com as vítimas, que veem sua integridade e seus bens ameaçados. Afinal, qual é a sociedade que estamos construindo?
Precisamos, com urgência, trazer para o centro do debate a ideia de um "pacto entre gerações". Assim como a nossa Constituição Federal estabelece esse compromisso em relação ao meio ambiente — cuidando hoje para que o amanhã exista —, precisamos aplicar essa lógica ao tecido social.
As políticas públicas e as escolhas que fazemos no presente são os fios que tecerão o futuro que todos nós, inevitavelmente, teremos que habitar.
Essa não é uma tarefa para um governo ou para uma instituição isolada; é uma edificação coletiva. Exige que olhemos para as nossas escolhas diárias e entendamos as consequências que elas geram.
O fortalecimento da justiça e da dignidade humana não é um ideal abstrato, mas uma necessidade prática para a nossa própria sobrevivência como comunidade. No fim das contas, o amanhã que tanto tememos ou esperamos é construído no olhar que lançamos hoje para aqueles que a sociedade teima em não enxergar.