Autor(a) Convidado(a)
É assistente social da Polícia Federal e mestre em Segurança Pública

Além das marquises: o direito à moradia em pauta na Igreja Católica

O Espírito Santo atingiu a marca de 4,5 mil indivíduos em situação de rua, o maior contingente registrado no último quinquênio

  • Gegliola Campos É assistente social da Polícia Federal e mestre em Segurança Pública
Publicado em 29/03/2026 às 10h00

Sob o tema “Fraternidade e Moradia”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) convoca a sociedade brasileira a encarar uma das mais graves e persistentes expressões da desigualdade contemporânea: o crescimento alarmante da população em situação de rua, uma crise humanitária que, embora esteja diante de nossos olhos, segue frequentemente invisibilizada.

Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG), publicados em janeiro de 2026, revelam que o Brasil encerrou 2025 com 365.822 pessoas nessa condição. No cenário estadual, o Espírito Santo atingiu a marca de 4,5 mil indivíduos, o maior contingente registrado no último quinquênio.

Em cidades como Vitória e Vila Velha, os logradouros públicos converteram-se no último refúgio de cidadãos que tiveram sua dignidade dilacerada. Trata-se do reflexo direto de um colapso multifatorial, que perpassa a ruptura de vínculos familiares, a precarização da saúde mental, a dependência química e a desigualdade socioeconômica.

Pessoas vivendo em situação de rua embaixo da Terceira Ponte, em Vitória
Pessoas vivendo em situação de rua embaixo da Terceira Ponte, em Vitória. Crédito: Fernando Madeira

Associado a riscos de violência, exploração e conflitos que ameaçam a segurança pública, o crescimento dessa população evidencia as falhas de uma estratégia nacional integrada de acolhimento, saúde mental, habitação e qualificação profissional.

Para além da fome, do frio e dos abusos, esse grupo ainda enfrenta a chamada “arquitetura hostil”, verdadeiros mecanismos de segregação que desumanizam o indivíduo em favor de uma estética urbana higienista, como o uso de pinos, pedras e grades para impedir a permanência em espaços públicos, sob o pretexto de “reduzir o incômodo urbano”.

A redução do contingente em situação de rua constitui um desafio complexo que exige prioridade na agenda governamental. Para enfrentá-lo, é imperativo transcender o assistencialismo paliativo e demandar do poder público a efetivação de políticas sociais transversais. Somente a articulação estruturante entre saúde, educação, trabalho e moradia será capaz de romper o ciclo da exclusão.

Em outras palavras, é preciso superar a lógica da segregação que se impõe, redesenhar a conjuntura societária sob a ótica da justiça social e edificar espaços urbanos pautados pela inclusão, segurança e sustentabilidade.

Mais do que um imperativo moral ou um gesto de solidariedade concreta, o acolhimento da população em situação de rua e a promoção de uma urbanização inclusiva são questões de garantia de direitos. Afinal, uma cidade que descarta seus habitantes mais vulnerabilizados revela a implosão de sua própria essência humana e de seus pilares civilizatórios.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.