Quando uma criança com autismo tem aquela popular "crise", a primeira pergunta que muitos fazem é: como interromper esse comportamento? É uma pergunta compreensível. Mas, na minha visão, não resolve o problema nem impede que as crises voltem.
Há quase uma década, eu mesma precisei rever meus referenciais. Atendia um paciente com autismo e sentia que o que eu fazia não era suficiente, quando uma colega me indicou um curso de DIR/Floortime, uma abordagem de que eu nunca tinha ouvido falar. Lembro até hoje como me encantei! Não porque aquilo era simples ou milagroso. Mas porque, pela primeira vez, o foco não estava na correção do comportamento da criança, estava na própria criança.
Nesse mundo só dela. Um mundo cheio de afeto que a gente raramente entra, só tenta fazer se encaixar no nosso. O próprio símbolo do autismo mostra essa incapacidade: é impossível completar esse quebra-cabeça tradicional, mas é possível criar um novo, melhor, junto com a criança e a família.
O modelo mais difundido no Brasil para o manejo do autismo é a Análise do Comportamento Aplicada, o ABA, centrado na modificação e no treino de comportamentos. É claro que o ABA tem resultados, mas muitos pacientes não se adaptam e, diferentemente do que parece, não temos apenas essa opção.
O DIR/Floortime propõe ir além: desenvolver as habilidades funcionais e emocionais que vão sustentar essa criança ao longo da vida, pelo vínculo, pelo afeto, pelo brincar e pela participação ativa da família.
Aqui está o maior diferencial. Muitas vezes, com uma criança autista, vem uma família adoecida, triste, estressada... uma mãe que não tem apoio e não sabe mais o que fazer. Ignorar o ambiente e olhar só para a criança é tratar menos da metade do problema.
Na abordagem DIR/Floortime, comportamento é comunicação. Há alguma coisa acontecendo para que a criança se comporte de determinada forma. Não adianta tentar modificar um comportamento, precisamos compreender o motivo daquilo estar acontecendo. Dizemos que o DIR/Floortime promove uma mudança de dentro para fora.
Depois que descobri isso, passei a estudar mais essa abordagem e fundei uma clínica DIR/Floortime aqui no Espírito Santo. Durante o doutorado, na Faculdade de Medicina da USP, acompanhei, por dois anos e meio, 28 pacientes com TEA que faziam terapia apenas no modelo DIR/Floortime.
A ciência comprovou o que eu e muitas mães atípicas já sabíamos na prática:
Avanços consistentes em comunicação, engajamento, autorregulação e desenvolvimento socioemocional das crianças. Três capacidades atingiram pontuação máxima antes do encerramento do estudo. Na parte pessoal e social, o índice final foi quase 10 vezes maior que o inicial.
O que para mim já foi incrível, para os pais e mães foi melhor ainda: na avaliação deles, as crianças alcançaram o nível máximo em todas as seis competências.
Elas passaram a comunicar o que querem sem apenas apontar, a brincar de faz de conta em diferentes formas e a compreender sentimentos abstratos – habilidades que, para muitas famílias que convivem com o TEA, pareciam distantes ou até impossíveis de serem desenvolvidas.
Neste mês em que o mundo fala sobre autismo, eu quero falar sobre esperança e escolha. O Brasil tem 1,1 milhão de crianças com TEA e a maioria das famílias nem sequer sabe que existem outras abordagens além das que o sistema oferece. Isso precisa mudar, e a ciência já mostrou o caminho.