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Polêmicas

A estranha fixação de Bolsonaro em torno da sexualidade

O modo agressivo e incompatível com o decoro do cargo de presidente é uma estratégia de ataque para disseminar a dúvida, confundir o eleitorado e minar a democracia

Publicado em 21 de Fevereiro de 2020 às 05:00

Públicado em 

21 fev 2020 às 05:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

O presidente Jair Bolsonaro conversa com turistas no Palácio da Alvorada Crédito: Antonio Cruz/Agência Brasil
Nesta semana, mais uma vez, para tentar fugir das perguntas de jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro atacou de maneira covarde a repórter Patrícia Campos Mello, afirmando que a profissional se insinuou sexualmente em troca de informações para prejudicar sua campanha. A fala gerou intensa revolta, exceto nos bolsonaristas mais fanáticos, que elegeram Bolsonaro justamente por seu modo peculiar de fazer política: trocando propostas sérias por discursos agressivos e inconsequentes.
Desde antes de ser eleito presidente da República, Bolsonaro sempre abordou temas ligados a homem e mulher de forma a relacionar a sexo, basta lembrar a onda de fake news em torno do tal do “kit gay”. Bolsonaro também já foi processado por dizer que não estupraria uma deputada porque, segundo ele, ela não mereceria, como se algum cidadão merecesse ser violentado sexualmente.
Questionado sobre ter recebido auxílio-moradia mesmo com imóvel próprio em Brasília, Bolsonaro esclareceu que usou a verba pública para “comer gente”. Disse também, em outras oportunidades, que preferia morrer a ter um filho homossexual e que a homossexualidade seria “falta de porrada”.
O presidente também não se envergonhou em dizer que por uma “fraquejada”, teve uma filha do sexo feminino. E os comentários sem noção não param por aí. Bolsonaro asseverou que só daria abraços héteros; já eleito, respondeu à pergunta de um jornalista afirmando que ele teria muito cara de homossexual; ao se referir a tratativas políticas, disse que estaria namorando ou noivando tal ou outro político e que teve briga de casal com um ministro; ao criticar o “turismo gay”, sugeriu que “fique à vontade” quem quiser vir ao país “fazer sexo com mulheres”; no carnaval passado, ao publicar vídeo com cena de nudez explícita, perguntou o que seria “golden shower”.
E não é apenas o presidente que tem essa fixação por temas sexuais deturpados. Governistas já tentaram convencer que nas escolas ensina-se perversidades às crianças e que nas universidades federais só haveria “piranha e maconheiro”. Recentemente, a ministra Damares Alves iniciou uma campanha por abstinência sexual, em vez de enfatizar os métodos já existentes de prevenção à gravidez indesejada e de combate às infecções sexualmente transmissíveis.
Já o presidente da Funarte, Dante Mantovani, criou a teoria de que “o rock ativa as drogas, que ativa o sexo, que ativa a indústria do aborto”, complementando que Elvis, Beatles e até a CIA estariam por trás dessa trama “satanista”.
Perto disso, as falas incompreensíveis de Dilma Rousseff são apenas sem sentido. Mesmo um opositor aos governos petistas (como eu), há de reconhecer que o PT nunca teve a fixação sexual que os bolsonaristas têm. Mas, não nos enganemos, por trás dos comentários ofensivos e com conotação sexual não há apenas a intenção de fugir das respostas às perguntas da imprensa.
O modo agressivo e incompatível com o decoro do cargo de presidente da República, vai bem além, é uma estratégia de ataque à imprensa, para disseminar a dúvida, confundir o eleitorado e minar a democracia. Respeitar a imprensa, as mulheres, e toda forma de diversidade, é um dever daquele que assume compromisso verdadeiro com a democracia.

Caio Neri

É graduado em Direito pela Ufes e assessor jurídico do Ministério Público Federal (MPF). Questões de cidadania e sociedade têm destaque neste espaco.

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