
Gutman Uchôa de Mendonça*
Me causa constrangimento assistir a malabaristas de rua atirando para o alto facões, bolas, instrumentos diversos, com o intuito de colher alguns trocados de motoristas parados em sinais.
Outro dia, pouco mais de meio-dia, indo para o almoço, num sinal da Avenida Leitão da Silva, uma jovem perguntou se eu podia ajudá-la, comprando mariolas. “Quanta custa”?, perguntei. “Um real”, ela disse. Respondi: “Me dê cinco”. E fui além: “Por que você vende mariolas?”. “Para pagar meus estudos!”, respondeu. Foi aí que tomei uma atitude: “Você me encontra neste endereço. Se você quiser estudar, eu ajudo a pagar seus estudos. Pode me procurar”.
O Estado e o país sofrem uma das maiores crises econômicas de sua história. Só o Espírito Santo tem mais de 400 mil desempregados sem esperanças de conseguirem um emprego, daí a nossa jovem vendendo mariolas nas ruas para pagar seus estudos.
É de cortar o coração a situação de muitas pessoas que, sem alternativas, se desesperam, enquanto a nação assiste a uma avalanche de corrupção que desafia tudo, sem qualquer perspectiva de estancamento da sangria.
Qual é a dificuldade de um município, que tem a faculdade de extorquir a população com uma absurda carga tributária, mas não possui um serviço social decente para dar encaminhamento digno a quem realmente está precisando de apoio?
Milhares de jovens não estudam e nem trabalham, se viciam, passam a delinquir pela necessidade de sobrevivência, sendo considerados “santos” pela família, até quando surgem mortos.
Será que as prefeituras e o Estado não possuem um serviço social de atendimento a essa gente sem esperanças de um futuro melhor?
Ainda temos pessoas corajosas, decentes, que vão às ruas vender mariolas, com o objetivo de ganhar dinheiro para pagar seus estudos. Qual é a dificuldade de um município, que tem a faculdade de extorquir a população com uma absurda carga tributária, mas não possui um serviço social decente para dar encaminhamento digno a quem realmente está precisando de apoio?
Me espanta ver pessoas válidas dormindo embaixo de árvores pelos jardins e marquises da cidade. São grupos de pessoas viciadas, vivendo ao relento, e que nos dão uma triste certeza: a de que a classe dirigente não tem escrúpulos, não sabe administrar, quer apenas se reeleger, mudar de partido e buscar novas oportunidades. Diante dessa brutal crise, o que nos aguarda o futuro?
*O autor é jornalista