Por mais de 30 anos, os corredores do IC-III, prédio que abriga o curso de História na Ufes, conta com exposição permanente da vida e obra de Antônio Vieira, jesuíta e figura central do século XVII no Brasil colônia. Os cerca de 20 quadros trazem algumas das mais de 700 cartas do padre, além de sermões originais e contextualização histórica.
Em assembleia, porém, estudantes de graduação e pós, com a verdade nas mãos, resolveram censurar as obras cobrindo-as com cartazes “contra o racismo e a opressão” e “em defesa de índios e negros”. Segundo o Centro Acadêmico, o trabalho é um “símbolo colonialista” que “fere alunos de pele preta e vermelha”. Para uma estudante, a obra deveria “sofrer com a hora da insurreição”.
Curioso, porém, é que Antônio Vieira atuou, sim, até os 89 anos combatendo a escravidão indígena, denunciando a violência contra negros e levantando-se contra a Inquisição.
Não por acaso, os índios de Belém o chamavam de “Paiaçú”, que significa “Pai Grande”. No Sermão XIV, de 1633, Vieira exclamou: “Em um engenho, vós negros padeceis de modo semelhante ao que Jesus padeceu na cruz”. Os engenhos de açúcar eram chamados por ele de “doce inferno!”.
Vieira ainda atacava a hipocrisia na igreja: “Se os ouvintes ouvem uma coisa e veem outra, como hão de se converter? Se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, como se há de fazer fruto?”.
Seu discurso era claro: “Não deve haver distinção de Escravo a Senhor, nem de cativo a livre”. Por isso, em 1661 o jesuíta resistiu a revoltas de colonos no Nordeste.
Curioso é que tais informações e citações constam nos quadros cobertos pela cria de historiadores da Ufes! É a prova de que a cadela da ignorância vive no cio desejando a censura; é a constatação de que o radicalismo é o combustível dos incompetentes e a única saída dos irrelevantes.
Por isso, na última terça fui à Ufes e retirei, um a um, os cartazes e seus dizeres alheios à gramática. Minha ação é um convite à leitura e um apelo à universidade, pois já se formou uma “comissão de alunos” para “pensar uma intervenção a longo prazo” num patrimônio público, acadêmico e federal!
Ironicamente, em um dos quadros, Vieira resume: “A mágoa é maior que toda a paciência”. E eu completo: a histeria é a voz de quem não tem nada a dizer.
*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia