Poucas horas depois do assassinato de Qassem Suleimani, o New York Times publicava artigo em que Michael Doran avaliava que “o mundo é um lugar melhor” sem o general iraniano. O professor Doran é um conhecido porta-voz do Instituto Hudson, um “think tank” localizado em Washington e muito vinculado ao governo americano.
A rapidez e a contundência da análise sugerem que a eliminação de Suleimani foi um projeto pensado com cuidado. Ou seja, os “falcões”, a ala mais belicista do estamento militar dos EUA, prevaleceram e detonaram o que restava da política externa gradualista dos tempos de Obama.
Por outro lado, os jornais europeus destacam o unânime repúdio dos líderes iranianos à ação americana. Os mais moderados fazem agora coro com os radicais, conclamando os xiitas, em pronunciamentos contundentes, a se vingarem dos EUA.
Bin Laden e Abu Bakr foram eliminados quando a Al-Qaeda e o Estado Islâmico já estavam enfraquecidos. Suleimani, ao contrário, estava no auge do prestígio, não só internamente, como em todo o Oriente Médio.
É preciso ter também em conta que o Irã não é qualquer país. Sua cultura milenar, suas reservas de combustíveis fósseis e sua posição geográfica, no cruzamento do Sul com o Centro e o Ocidente da Ásia, asseguram-lhe influência direta no mundo árabe e no mercado mundial de petróleo.
Há um sério risco, portanto, de escalada dos conflitos no Oriente Médio, com repercussões negativas e continuadas para a economia e para a segurança mundiais, para não falar no enfraquecimento do Direito Internacional diante da lei do mais forte.
É claro que o Conselho de Segurança da ONU vai se reunir, vozes sensatas (entre as quais, espero, as dos atuais responsáveis pelo Itamaraty) advogarão negociações imediatas entre as partes envolvidas e o respeito às normas civilizatórias do Direito Internacional e da diplomacia.
Mas os EUA produzem quase todo o petróleo que consomem, as turbulências afetarão mais o abastecimento da Europa e da China, e Trump, a esta altura, só se preocupa com a campanha para a reeleição. Não é um bom começo de ano, no plano internacional.
O autor é embaixador aposentado