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Alvaro Abreu

Wei Wei é o motivo de comemorar o final de ano em São Paulo

Faz tempo que ouvi falar dele, mas só mesmo vendo de perto para perceber a contundência do seu trabalho

Publicado em 27 de Dezembro de 2018 às 21:04

Públicado em 

27 dez 2018 às 21:04
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Artista chinês Wei Wei Crédito: Amarildo
A ceia de Natal deste ano foi em São Paulo, onde moram três dos nossos filhos e cinco netos, formando uma expressiva maioria. O pedido dengoso da filha para ajudar na arrumação da casa nova engrossou as motivações para mudar o lugar da festa. Viajamos com expressa recomendação de ver a exposição de Ai Wei Wei, que ocupa os quatro andares da Oca, no Ibirapuera. Trata-se de artista chinês de alta potência, ativista convicto e corajoso, que enfrenta as forças que governam seu país com mãos de ferro. Faz tempo que ouvi falar dele pela primeira vez, mas só mesmo vendo de perto para perceber a contundência do seu trabalho, fruto de vivência intensa de cada questão e fundamentado num conceito direto: “saber e não esquecer”. Tudo é muito bem registrado para ampla difusão.
Para denunciar a morte de mais de cinco mil alunos, provocada pela má qualidade das construções de mais de 700 escolas públicas que não resistiram à força de um terremoto, Wei Wei ocupou 60 metros corridos do subsolo, com centenas de toneladas de vergalhões de aço que recolheu nos escombros, para representar trincas e descontinuidades nos terrenos afetados pelo fenômeno. Todos eles foram retificados manualmente, com marretas, por muitos colaboradores, durante vários meses de trabalho. Em paralelo, mobilizou moradores de todos os lugares atingidos para conseguir informações sobre cada criança que morreu.
Para expressar sua solidariedade com as populações de refugiados, lá está um um enorme barco inflável repleto de crianças e adultos, todos iguais, usando coletes salva-vidas. Tudo em plástico preto.
Para criticar aqueles que ficam acompanhando a movimentação dos poderosos da vez, como fazem os girassóis com a luz do sol, ele mobilizou trabalhadores e artesãos de uma pequena cidade do interior da China, durante mais de um ano, para produzir mais de cem milhões de sementes de girassol, em porcelana pintada à mão. Um terço delas compõe o desconcertante tapete de sementes, de uns 400 metros quadrados e um palmo de espessura, que impacta e faz pensar quem vai ao andar de cima da Oca.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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