Não é só no fechamento dos supermercados aos domingos que Vitória dá um exemplo de atraso provinciano. A novela que emperra a implantação da Linha Verde é a mais recente demonstração de como a mentalidade tacanha de alguns é capaz de emperrar o desenvolvimento da nossa comunidade.
Em todo o mundo, a prioridade é dada ao transporte coletivo como forma de minimizar os problemas de mobilidade urbana. A França chega a cobrar uma taxa para financiar o transporte coletivo. Paris adota a faixa exclusiva para ônibus há 20 anos. Em Londres, na área central, os novos edifícios são obrigados a limitar a quantidade de vagas destinadas aos carros. Lá, assim como em Cingapura e Estocolmo, há a cobrança de pedágio urbano para desestimular o tráfego de automóveis.
No Brasil, a Política Nacional de Mobilidade Urbana, de 2012, tem o propósito de incentivar o transporte coletivo e desestimular o uso do automóvel como forma de promover o desenvolvimento sustentável das cidades. A política foi adotada diante da constatação de que é preciso reduzir os congestionamentos do trânsito de veículos na área urbana que cresce 10% ao ano e causa deseconomias como acidentes, aumento de custos, poluição ambiental e perda na qualidade de vida das pessoas.
Em Vitória, a situação não é diferente. A quantidade de veículos cresce na mesma proporção do país. A prefeitura constatou que a Avenida Saturnino de Brito atingiu, no horário de pico, o índice de 195% da sua capacidade de tráfego. “Em cinco anos, será impossível transitar por ela”, prevê o secretário de Transportes e Trânsito.
Não é sem razão que o Plano de Mobilidade Urbana de Vitória, que contempla a implantação da Linha Verde (a faixa exclusiva para coletivos) foi incluído no Plano Plurianual de 2017 e aprovado pela Câmara Municipal após amplo debate em 22 reuniões realizadas com 75 associações e 30 conselhos.
Em 12 de março, a prefeitura implantou o primeiro trecho da Linha Verde, em Camburi. Uma ação judicial movida por uma única moradora de Jardim Camburi obteve uma liminar no dia 21. Sete dias depois, a liminar foi cassada, mas a moradora ingressou com um recurso que até hoje não foi julgado pela 2ª Câmara Cível. Enquanto a decisão judicial não chega, a prefeitura adia a implantação da Linha Verde cujo projeto se estenderia até a Rodoviária de Vitória.
As alegações da moradora, dadas ao Gazeta Online, são um primor de individualismo: “A Linha Verde não trouxe benefício, só o caos; pego esse engarrafamento diariamente; ela é obsoleta”. Obsoleta, na verdade, fica sendo a nossa cidade ao conviver com essa vanguarda do atraso.