*Gutman Uchôa de Mendonça
Sob o título “Violência sem limites - Mais de 100 pessoas já deixaram o Morro da Piedade este ano”, a matéria de primeira página do jornal A GAZETA do dia 15 de junho relata que, num ambiente de medo e incertezas, escolas da comunidade já registraram 69 pedidos de transferência de alunos, num atestado eloquente de que a Capital está a milhares de léguas de ser um lugar de qualidade de vida, como anunciam, não sei como, de vez em quando.
Faz parte de algo chamado incúria administrativa a irresponsabilidade pelo favelamento criminoso que se espalha por aqui, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, cidades maiores e menores do Brasil, como em nenhum outro país chamado de decente.
Recentemente, por obrigações diversas, participei de reuniões na Câmara Municipal de Vitória, a convite do vereador Davi Esmael, para discutir o PDUM – Plano de Desenvolvimento Urbano Municipal com “lideranças da comunidade”. Estavam reunidas ali exatamente as pessoas que podiam entender de tudo, menos de desenvolvimento urbano, embora se diga que as câmaras municipais se constituem em caixas de ressonância das aspirações das sociedades. Mas, se as sociedades desconhecem ou querem impor a seu gosto o que os princípios básicos do urbanismo não recomendam para uma existência decente, o poder público municipal precisa compreender que o interesse de uma cidade não pode ser imposto por um bando de incompetentes.
Se qualquer pessoa, de modesto entendimento de urbanismo, de segurança, estética, meio ambiente, parar na Av. Leitão da Silva, ou na chamada Curva do Saldanha, um pobre prédio tombado pelo chamado patrimônio público que se acaba ao sabor das intempéries, ficará estarrecido por permitirem a construção daqueles barracos, com quatro pernas frágeis em concreto armado. Em nenhuma parte do mundo onde existe fiscalização para estabelecer regras para as construções urbanas se arvorariam a projetar barracos de até cinco pavimentos, até em circunstância de risco que jamais poderia ser tolerada. Mas o que acontece com alguém que, por circunstância econômica difícil, pelo desemprego, às vezes, não consertar sua calçada, que é obrigação do poder municipal? Vai ser multado e, se duvidar, preso...
As cidades, os Estados, não têm o direito de chamar técnicos de fora, do outro lado da Terra, para fazer planejamentos diversos, sem conhecer as peculiaridades locais.
Quem foi que disse, o sábio, que as montanhas capixabas possuem o melhor clima para se morar, do mundo? As melhores cidades de melhor qualidade do mundo? No Brasil? Precisava ser mais realista e menos ridículo.
*O autor é jornalista