"Quero mudar de vida, me formar, mas é difícil até estudar. Eu vi os bandidos gritando que iriam colocar o terror, que eles eram o comando". O relato é de um estudante de 25 anos, impedido de chegar à escola ontem em meio ao clima de guerra que se instalou em Central Carapina, na Serra, bairro mais violento do Espírito Santo, segundo dados de homicídios registrados em 2017. O cenário de medo, com bandidos encapuzados, tiros, depredação e comunidades sitiadas, que permanece hoje, é apenas o caso mais recente de um panorama desolador que atinge as cidades brasileiras e, infelizmente, se alastra pelos antes pacatos municípios do interior.
Ao mesmo tempo em que choca, também causa, cada vez mais, uma estranha e nauseante sensação de familiaridade. Segundo o Atlas da Violência 2017, produzido pelo Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA),o Espírito Santo foi um dos oito estados que conseguiram reduzir sua taxa de homicídios, entre 2005 e 2015, em 21,5%. No entanto, o índice continua acima da já péssima média brasileira, considerada por especialistas equivalente à de países em guerra.
Casos como o de Central Carapina escancaram a grave crise da segurança pública em todo o país, que leva a atitudes extremadas como a atual intervenção federal no Rio de Janeiro. A explosão da violência urbana, o domínio das periferias por facções criminosas, a baixa remuneração de policiais e a superlotação dos presídios são algumas das facetas da questão. Infelizmente, as ações dos governos, ao longo da história, têm servido apenas para apagar o incêndio depois que o estrago já foi feito. Enquanto isso, a população vive refém do medo.
É mais do que urgente que os governantes, à luz do atual debate sobre o caos instaurado no país na área de segurança, busquem medidas eficazes para combater esse sufoco. É imperativo que esse enfrentamento ocorra não apenas pela força policial - necessária, mas insuficiente diante de um problema de tal magnitude -, mas também por meio de políticas públicas estruturantes, que ataquem a raiz do problema, que é a desigualdade social. Sem moradia, emprego e educação, todos continuaremos pagando caro por essa fatura.