
Profissionais atuam em locais que são rejeitados
Elda Bussinger, doutora em Bioética e professora da FDV
Teremos uma piora significativa das condições de saúde das pessoas com o fim do programa Mais Médicos, não há dúvidas, com aumento dos casos de mortalidade infantil, hipertensão, diabetes, doenças crônicas, dentre outras. E vai resultar ainda no agravamento e piora também das condições de saúde nos hospitais.
São profissionais que atuam nas periferias e áreas violentas. Locais recusados pelos médicos brasileiros, porque não existe contratação de um estrangeiro se o brasileiro quiser a vaga, e esta é uma situação que não vai mudar com o encerramento do Mais Médicos no país.
São os médicos do programa que garantem para esta camada da população os três princípios constitucionais, de doutrina do Sistema Único de Saúde (SUS): universalidade, igualdade e integralidade. Nada disso ocorre se não tiver médicos na periferia, no interior, nos municípios pequenos, o que representa uma injustiça social violenta. Outro ponto importante é que os médicos do programa são especialistas na chamada atenção primária em saúde.
Cuba, por conta de seu isolamento, não teve acesso à tecnologia, mas focou a educação destes profissionais nos cuidados primários, como vacinação, acompanhamento da hipertensão, da diabetes, da puericultura, da ginecologia. Eles podem não ter uma especialização ultrassofisticada em tecnologia, mas são especialistas em ouvir pessoas. São médicos apropriados para o Brasil. E é bom destacar que pesquisas já indicaram que 90% dos problemas de saúde das pessoas durante a vida se resolvem na atenção básica. São os problemas que eles vieram resolver, e de fato conseguiram. Pesquisas apontam que as condições de saúde das pessoas melhoraram nas regiões onde eles atuam.
Saída não terá impacto se governo se reorganizar
Celso Murad, presidente do CRM
A vinda dos médicos desde 2013 não alterou a qualidade da assistência em nada. Muito desses números não tinham fundamento. Falaram que a internação no país caiu em 30%, mas é uma falácia. Na verdade, foram perdidos 40 mil leitos hospitalares de internação. Por isso, caiu o número absoluto. A informação foi manipulada. A saída deles não terá impacto, desde que o governo se organize para redimensionar a rede assistencial pública.
Nós achamos o seguinte: o Estado e o país têm o quantitativo de médicos suficientes e com qualidade para atender o cidadão, mas falta dar condições de trabalho. A declaração de Bolsonaro não é uma ameaça, pois faz parte de uma pauta nossa. Queremos a volta do Revalida, como classificador da qualidade dos médicos estrangeiros e dos médicos brasileiros formados no exterior para atuarem no país. Queremos o plano de carreira para os profissionais da saúde no SUS, acesso por concurso público, salário digno e condições de trabalho. Se tivesse isso, não teria falta de médico em lugar nenhum. Não é preciso trazer médico de fora, é preciso investir nos que temos aqui. Os médicos brasileiros têm condições de suprir as necessidades de saúde da população.
Boa parte desses médicos cubanos que vieram para cá não eram médicos mesmo, eram agentes políticos do governo ou técnicos de saúde com nível de conhecimento muito baixo de medicina. Era uma forma de mandar dinheiro para aliados fora do país.
Boa parte deles estavam em locais onde já existe um grande quantitativo de médicos. Eles nem sempre eram levados para locais onde eram necessários. Não havia gerência nenhuma sobre eles. Eles não tinham obrigatoriedade de se registrarem nos Conselhos de Medicina e não tinha como formarmos uma parceria, pois não poderíamos fiscalizar o trabalho deles.