O deputado federal Carlos Manato é presidente do Solidariedade no Espírito Santo. Vou repetir: presidente estadual de um partido político. Porém, em nova demonstração de como fidelidade partidária vale muito pouco, ou nada, em nosso deteriorado sistema político, o dirigente máximo da sigla no Estado está prestes a abandonar o barco. Deve continuar a viagem a bordo de uma nave que lhe dê maior comodidade para navegar nos mares da próxima eleição. De preferência, ao leme dessa outra embarcação.
Independentemente de abrigo partidário, a prioridade absoluta de Manato é fortalecer a candidatura de Jair Bolsonaro no Espírito Santo e, de quebra, fortalecer a si mesmo na aba do presidenciável, reforçando a associação de sua imagem à do capitão da reserva do Exército, que acaba de se filiar ao nanico Partido Social Liberal (PSL).
Por isso, sem mais nem menos, Manato passou a confirmar na última semana que avalia deixar o Solidariedade para se filiar ao PSL. Isso, observem, poucos dias após anunciar encontro estadual do Solidariedade, marcado para o próximo dia 22. Poucos dias após anunciar a nomeação de Amaro Neto, pré-candidato ao Senado, como presidente de honra do partido. E poucos dias após anunciar a filiação de Capitão Assumção – acusado de ser um dos líderes do movimento grevista dos policiais militares em fevereiro de 2017 – ao Solidariedade.
Manato ainda não se decidiu. Por ora, avalia as opções. Como sempre, a decisão será ditada pelo pragmatismo (o que é mais vantajoso para mim no momento?). “Quero fazer tudo bem conversado. Entrei no Solidariedade pela porta da frente. E tenho compromisso com o Paulinho da Força (presidente nacional da agremiação). Então, para sair, tenho que sair pela porta da frente. Estou conversando com o Paulinho, com o Amaro, com todas as lideranças que estão conosco”. Por “lideranças conosco”, entenda-se os pré-candidatos que Manato pretendia encaixar na chapa proporcional do Solidariedade, incluindo Assumção, mas que agora podem migrar em peso para o PSL, no rastro de suas passadas.
Para ir para o PSL, Manato quer algumas garantias. A principal delas: ocupar a presidência estadual do partido, hoje ocupada por Amarildo Lovato. “Considero, sim, essa possibilidade de ir para o PSL. A primeira condição é eu assumir a presidência estadual e coordenar a campanha no Estado. Senão não tem condição. Não vou trocar o certo pelo duvidoso e não posso ficar refém”, expõe o sincericida Manato, com a franqueza que lhe é peculiar.
Na verdade, no cenário ideal para ele, o deputado seguirá mantendo influência sobre as duas siglas: PSL e Solidariedade. “Tenho a opção de ficar com os dois partidos e coordenar a campanha de Bolsonaro no Estado.” Para isso, Manato chegou a oferecer a Amaro a presidência estadual do Solidariedade (não só de honra, mas de direito). Amaro demonstrou pouco interesse. A esta altura, está mesmo de saída da sigla e com um pé e meio dentro do PRB, o braço político da Igreja Universal do Reino de Deus.
“Se Manato seguir para o PSL, preciso entender como vai ficar o Solidariedade”, diz Amaro. “Manato vai levar algumas figuras com ele, ligadas à PM ou com votos. Eu teria muito pouco tempo hábil para reconstruir o partido. Preciso de tempo para digerir isso. Eu disse para o Manato: ‘Se você sair do Solidariedade, você quebra minha perna. Não consigo em pouco tempo fazer o que você fez em quatro anos’. Ele tem uma musculatura de partido montada. Quando ele sai e vai para outro partido e leva figuras ligadas aos militares, ele aumenta a musculatura dele lá, mas nós perdemos no Solidariedade. Sem o Manato, não sei nem se eu consigo ter a chancela dos dirigentes nacionais para ser candidato a senador”, explica o deputado e apresentador de TV.
No fundo, o próprio Manato já dá como certa a ida de Amaro para o partido da Igreja Universal. Mas a mudança ainda não é oficial. Indagado se vai mesmo para o PRB, Amaro diz que vai se decidir só após a decisão de Manato.
Mas não dá para rezar para dois santos. Por isso, é muito provável que Amaro passe a rezar no templo da Universal. Como diz um aliado do deputado, “o Amaro vai ter que fazer uma opção: ele vai fazer um movimento colado aos PMs grevistas ou vai fazer um movimento colado ao governo Paulo Hartung? Além disso, Manato vai na linha Bolsonaro. O movimento do Manato não vai desaguar no movimento do Paulo Hartung”.
Pode ser que nenhuma dessas mudanças se concretize, mas a tendência é fortíssima. Na prática, se a dança prevista se consumar, o resultado pode ser basicamente a extinção do Solidariedade no Espírito Santo. A loja terá as portas fechadas pelos próprios donos no Estado.
Não que isso importe muito para os donos. Certo, o partido praticamente acaba em terras capixabas. Mas o partido sempre foi só um detalhe nesta história.
Política como ela é
Em tempo: não é só Carlos Manato. A diferença é que Manato o verbaliza. Mas quase todos os dirigentes e candidatos agem exatamente como ele.
Manato e Assumção
“Tenho interesse muito grande de, onde estiver, levar Capitão Assumção”, garante o deputado federal.
Suave, suavecito
Justificando por que quer ganhar tempo para bater o martelo, Manato elabora: “Tem que definir compartilhando. Não pode ser ditatorial. Tem que ouvir, conversar, tem que ser uma coisa suave”...
Antiditatorial
Ou seja, Manato é parceiro de Bolsonaro, candidato que adora a ditadura. Mas ele próprio não curte decisões ditatoriais...
Enio: tô fora
O diretor-geral do Departamento de Estradas de Rodagem (DER-ES), Enio Bergoli (PSDB), confirma: após conversa com o governador Paulo Hartung (PMDB) e o vice, César Colnago (PSDB), abortou a candidatura a deputado estadual. “Tenho perfil realmente mais técnico, de gestão. Outro ponto é que estou há pouco tempo no DER-ES (entrou em agosto de 2016) e quero consolidar o trabalho. Estou motivado para continuar a agenda de governo.”
A base agradece
Mas não foi só isso. Conforme a coluna apurou, Enio sentiu a pressão de deputados da base do governo na Assembleia que fazem uma “reserva de mercado” e que sentiam a reeleição ameaçada pela pré-candidatura do tucano. Tanto que, após este comunicar sua decisão a Hartung, o governador comentou, de maneira bem-humorada, que iria capitalizar o fato: “Que bom! Vou agradar a uns dez deputados da base com essa notícia”, brincou, meio falando sério.
Olhem o Brasil
Deu na Folha de S. Paulo: entre as 27 unidades da federação, o Espírito Santo está entre as 11 com pior variação em gastos com segurança pública de 2015 a 2017. Para ser mais exato, está entre os dez Estados que registraram queda de até 10% nos gastos com segurança durante o período analisado (os outros são AL, AM, AP, BA, PA, RJ, RN, SE e SP). Rondônia registrou queda superior a 10%. Já nas outras 16 unidades, observou-se aumento nos gastos na área no mesmo período.
Olhem o Brasil 2
Quanto aos gastos per capita em segurança pública em 2017, o Espírito Santo está na faixa de R$ 300,00 a R$ 400,00 por habitante. Dez Estados gastaram mais do que isso no mesmo ano, inclusive o Rio de Janeiro (de R$ 500,00 a R$ 600,00 per capita) e Minas Gerais (de R$ 600,00 a R$ 700,00 per capita).
Educação
De acordo com relatório do Tribunal de Contas do Estado sobre a situação fiscal dos Poderes no exercício de 2017, o percentual de aplicação da receita estadual em educação só tem caído desde 2014 (ainda que o governo continue cumprindo o mínimo constitucional de 25%):
. 2014: 29,55%
. 2015: 27,78%
. 2016: 27,09%
. 2017: 26,71%
Saúde
Já o percentual de aplicação da receita em saúde se recuperou um pouco em 2017, mas ainda é menor que o de 2014:
. 2014: 18,44%
. 2015: 17,69%
. 2016: 16,87%
. 2017: 17,19%