*José Vicente Pimentel
Desde o fim da II Grande Guerra, os Estados Unidos da América são a supernação dominante. Há sete décadas exportam não apenas bens e serviços, mas também um estilo de vida e um modelo político, que se reflete numa ordem mundial erguida sobre a norma da legitimidade, de aceitação global. Quando o presidente do país que vinha sendo promotor, defensor e principal beneficiário dessa norma passa a contestá-la, as turbulências no sistema tornam-se inevitáveis e potencialmente nocivas para todos os seus integrantes.
Com o surgimento do sistema da ONU, o recurso à guerra, recorrente no início do século XX, passou a ser considerado ilegal e os países membros adotaram regras, que julgaram de seu interesse obedecer. As negociações passaram a ser a tônica, e os Estados abriram mão de parcelas de sua soberania por perceberem ganhos concretos na convergência regulamentada das vontades nacionais. Apesar das falhas da ONU, de 1945 para cá não houve guerras mundiais e o mundo conheceu décadas de prosperidade.
Com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, parecia que o modelo americano e o sistema constituído pelas Nações Unidas, suas agências e a União Europeia havia triunfado. No entanto, ao invés do fim da História, superpuseram-se a surpresa do Brexit e o fortalecimento de partidos autoritários na França, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Austria, Suíça, Hungria, Polônia, uma lista cada vez mais longa.
A reversão de expectativas e a decorrente frustração americana têm raízes na evolução da economia, e esta na revolução tecnológica. Enquanto o 1% mais rico da população americana detinha menos de 8% do PIB em 1970, hoje detém 20%, e os 10% mais ricos detêm 50% da renda total. Por sua vez, os salários, ajustados pela inflação, permanecem iguais há quase 30 anos. Ou seja, o progresso tecnológico não vem gerando aumentos de bons empregos, mas tem criado alguns poucos extremamente bem remunerados para os Bezos e Zuckerbergs da vida, o que aumenta a percepção de desigualdade e o mal-estar social.
O desgaste econômico tem reflexos também na aliança estratégica dos países ocidentais, espinha dorsal da estabilidade político-diplomática pós-II Guerra. Os membros da coalizão contra a URSS comandavam grande parte do PIB global. Hoje, sua parcela caiu a menos da metade e, segundo projeção do FMI, em mais uma década cairá para um terço da renda mundial. Enquanto isso, a participação de países como a China, Arábia Saudita e outros do Golfo vem crescendo. Irã, Casaquistão e Rússia ostentam rendas per capita superiores a US$ 20 mil. O modelo do capitalismo autoritário ganha prestígio, em detrimento das democracias liberais.
O impacto nos empregos
O que agrava a situação é o impacto da revolução tecnológica nos empregos. Jovens que não encontram vagas no mercado de trabalho, e experientes trabalhadores ameaçados por tecnologias que não dominam, revoltam-se diante de problemas cuja origem não compreendem e cujas soluções simplesmente não existem ainda. A frustração leva à rejeição dos políticos tradicionais e à preferência por candidatos, mesmo ignorantes, que tenham pose de fortes e discurso radical contra o comércio exterior, contra a globalização, contra a imigração, contra as elites, contra tudo que está aí, inclusive a norma da legitimidade, que garantia a estabilidade do sistema.
Trump é um efeito perverso desse estado de coisas. Prega apenas para os convertidos e comporta-se como se prosseguisse em campanha, esquecendo que a presidência o torna responsável perante toda a nação (e, por se tratar dos EUA, perante todo o mundo). Limita-se a bajular o “verdadeiro americano”, o homem branco esquecido pelas políticas identitárias, que o aplaudirá, mesmo se assassinar alguém às 5 da tarde na Quinta Avenida, e curtirá seus tuítes, mesmo se absurdos, pois não se norteia pela razão nem por uma ideologia, mas sim pelo culto que dedica ao líder. A leviandade e o medo são as forças motrizes dessa triste minoria, que aumenta a cada dia, cevada no medo, que é o mais forte dos sentimentos -- o medo, no dizer de Manuel Castells, de que se desmantelem as últimas defesas da tribo ante a invasão do desconhecido.
A América esteve em primeiro lugar durante todo este tempo, dada a sua prosperidade e o seu código de conduta democrática. Alterar os fundamentos do sistema é flertar com o perigo
Mas a História mostra que messianismo não leva a bom termo, e desestabilizar aliados históricos pode ser desastroso. Ademais, o retrospecto da economia mundial nos últimos cem anos comprova que as guerras comerciais não aumentam o número de empregos, pelo contrário, desnorteiam o setor produtivo, travam a produtividade e tumultuam os mercados. A origem do desemprego não está no comércio. Relatórios de agências governamentais americanas demonstram que, entre 2000 e 2010, mais de 85% dos empregos em manufaturas nos EUA foram eliminados por obsolescência em função de avanços tecnológicos, avanços de que a economia americana não pode abrir mão.
Fustigar a China, que vinha balizando seu crescimento pelas regras do status quo; agastar-se com a OTAN, cujo êxito na manutenção da paz no continente europeu tem sido essencial para a pax americana, e cortejar líderes autoritários com acesso a arsenais nucleares e sem controle psiquiátrico, tudo isso gera perplexidade e pode levar ao descrédito a norma da legitimidade que está no DNA do sistema global e o mantém estável e sem guerras mundiais desde 1945. A América esteve em primeiro lugar durante todo este tempo, dada a sua prosperidade e o seu código de conduta democrática. Alterar os fundamentos do sistema é flertar com o perigo.
Humanidade sempre soube transpor os obstáculos
Trump e outros líderes autoritários que assumem projeção em decorrência da crise vampirizam o estresse derivado das incertezas da transição que o mundo vive, e viverá, até sabermos com mais clareza aonde vamos. A fase é complicada, mas não inédita. Em recente artigo, Walter Russell Mead demonstrava que um dos aspectos mais marcantes da Revolução Industrial foi a transformação que houve, na passagem do século XVIII para o XIX, no modo que as pessoas viviam e trabalhavam. Ora, a revolução da informação promete ser mais transformadora ainda. Sob o impacto das inovações tecnológicas, muitas atividades desaparecerão, mesmo algumas hoje exercidas por profissionais de alta qualificação. Há uma clara tendência para um aumento exponencial de pequenos empreendedores, e o poder do Estado será inevitavelmente afetado. Governos precisarão ser muito mais ágeis na interação com o público, para atender às reais demandas e superar os antagonismos que a crescente transparência tende a criar.
Mas a lição mais importante da História é a de que a humanidade sempre soube transpor os obstáculos e reinventar-se. É nessa direção que precisamos todos trabalhar desde já para atingir uma possível nova era de riqueza, liberdade e bem-estar, em que, provavelmente, a inteligência artificial simplificará o cotidiano, os transportes e as comunicações serão muito mais rápidos e seguros, e a medicina se beneficiará de inovações tecnológicas no diagnóstico e tratamento de uma gama de males, com uma redução considerável de custos e aumento de qualidade dos procedimentos.
Nem precisa dizer que esse mundo admirável precisará de água em abundância, mares e rios limpos, atmosfera perfeitamente respirável, exigirá, enfim, os cuidados devidos a um meio ambiente em equilíbrio. A revolução da comunicação e dos transportes ampliará a liberdade dos meios de produção e assegurará ampla mobilidade também à mão de obra. O turismo crescerá a níveis nunca vistos, e o comércio se universalizará, cada um buscando supridores onde quer que estejam seus produtos preferidos. A comunidade internacional, cada vez mais interconectada, reconfirmará a necessidade imperiosa de respeito a regras pactuadas, a obediência às quais será imprescindível, dadas as vantagens econômicas e sociais, além de políticas, da boa convivência.
É altamente discutível que políticos como Trump possam conduzir-nos a esses tempos felizes. Já ficará de bom tamanho se não condenarem o mundo a catástrofes. A rigor, a marca mais positiva que Trump poderá deixar, a contribuição mais importante que governantes com seu pedigree poderão dar ao século XXI será a conscientização geral de que suas atitudes desagregadoras e improdutivas não têm lugar num mundo civilizado e amante da paz.
*O autor é embaixador aposentado