Tem sido cada vez mais difícil lidar com a crueldade humana sem se abater profundamente. A cada linha divulgada da decisão do juiz André Dadalto sobre a prisão preventiva de Juliana Salles, a consternação toma conta. Impossível não se abalar com a informação de que a mãe de Kauã e Joaquim tinha conhecimento dos abusos e maus-tratos sofridos pelos filhos. E, para piorar, que tenha compactuado para capitalizar com a tragédia, buscando atrair mais dinheiro e fiéis para a igreja que comandava com o marido, o pastor Georgeval Alves, em Linhares.
“Eu não estou preparada para dar errado”, disse Juliana em mensagem ao marido na ocasião da intimação do pastor. “Dar errado”, perder o status conquistado, parece ali mais doloroso do que a morte ainda recente dos filhos. Total inversão de valores. É tudo chocante demais, incompreensível demais, desumano demais. Os piores sentimentos afloram de forma superlativa diante de tanta monstruosidade. Assim como a indignação.
As trocas de mensagens foram fundamentais para embasar o pedido de prisão da pastora. Na decisão, o juiz enxergou que Juliana “tinha ciência do comportamento sexual incompatível com a pregação” do marido por ela já ter afirmado ter nojo do comportamento de George. Em outro parágrafo, fica exposto que o pastor “deixava faltar alimento, medicamentos e atendimento médico” às crianças. Na escola, os meninos chegaram a relatar abusos a professores.
A comoção é grande, a resposta da Justiça precisa ser rápida. Foram de extrema relevância as investigações do Ministério Público do Estado para se chegar à denúncia contra a mãe. O julgamento, é sempre bom lembrar, ainda não ocorreu. A Justiça deve continuar sendo minuciosa, para que o casal, se condenado, tenha pena exemplar.
Tão impressionante quanto a atrocidade é o sangue-frio que cerca cada detalhe dessa história macabra. Expõe uma insensibilidade que assusta, como se as pontes que possibilitam uma convivência mais harmoniosa entre as pessoas, até de uma mesma família, tivessem sido implodidas. Não é fácil nem mesmo fechar os olhos após conhecer esse lado tão obscuro do ser humano.