Amanhã, 23 de agosto, é o Dia Internacional da Memória do Tráfico Negreiro e de sua Abolição. Essa data foi escolhida porque, na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, homens e mulheres, levados da África e vendidos como escravos, revoltaram-se contra o sistema escravagista para obter liberdade e independência para o Haiti, o que foi conquistado em 1804. A revolta foi um momento decisivo na História da Humanidade.
Quando estudamos a História do Brasil, aprendemos que o tráfico de escravos foi proibido em 1850, bem antes da abolição da escravidão, que ocorreu em 13 de maio de 1888.
Se assim é contada nossa História, o que é o tráfico humano que foi, em 2014, o tema da Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB? Existe tráfico de pessoas em terras brasileiras? Infelizmente, a resposta à indagação é afirmativa.
Crianças são traficadas para extração e comércio de órgãos. Mulheres desprovidas de um mínimo de informação são iludidas com promessas de bem-estar e traficadas para a prostituição.
Trabalhadores são deslocados do lugar onde vivem e transportados para outros territórios a fim de serem explorados como escravos. Não se trata de uma fantasiosa história de terror, mas de um fato concreto.
O que não se pode admitir é a atitude de passividade e silêncio, quando sabemos que existem seres humanos tratados como mercadoria. E até pior do que mercadoria
Não é preciso ser católico, ou ser cristão, para dizer peremptoriamente: basta “isto não pode continuar”.
Para o homem religioso, o tráfico humano é uma blasfêmia, é ofensa ao Deus Criador. Para o homem que guarda princípios éticos, sem professar uma crença, sem se filiar a um credo, o tráfico humano é uma ignomínia que não pode ser tolerada.
Mas não basta protestar e indignar-se. É preciso exigir providências para que o tráfico humano desapareça dos horizontes nacionais.
Sejam cobradas ações efetivas dos Poderes Executivo e Legislativo. Que se exijam posições firmes e rigorosas do Ministério Público. Que o Poder Judiciário, devidamente provocado, não se cale, nem transija. Que a sociedade civil como um todo assuma sua grande parcela de responsabilidade.
O que não se pode admitir é a atitude de passividade e silêncio, quando sabemos que existem seres humanos tratados como mercadoria. E até pior do que mercadoria. As mercadorias são guardadas e conservadas para que não se deteriorem, enquanto pessoas humanas vítimas de tráfico são expostas à perda da condição humana, à destruição, à doença e à morte.
Se aqueles que são vítimas do tráfico nem protestar podem, sejamos nós a voz dos que não têm voz, de modo que nosso grito de revolta ecoe de Norte a Sul deste Brasil que nasceu sob o signo da cruz com a primeira missa celebrada por Frei Henrique de Coimbra.