Renato Casagrande (PSB) foi vitrine cercada por quatro pedras no debate desta terça-feira (2) da TV Gazeta. Exceto por Rose de Freitas (Podemos), que o poupou de críticas mais incisivas, todos os oponentes escolheram o ex-governador como alvo, tanto em momentos de confronto direto com ele como também em algumas dobradinhas – perguntas feitas entre os adversários, usadas como motivação para atingir Casagrande indiretamente.
A estratégia quase geral era esperada até certo ponto, dada a grande distância de Casagrande sobre os demais candidatos, conforme as últimas pesquisas do Ibope e da Futura. Até semana passada, o socialista venceria no primeiro turno a eleição ao governo do Estado.
Manato abriu os trabalhos e foi, ao lado de Aridelmo, o mais contundente nas investidas contra o ex-governador. Em uma estratégia de resultado incerto, buscou associar-se exaustivamente a Bolsonaro, ao mesmo tempo em que se esforçou em colar em Casagrande o rótulo de “vermelho”, por ser ele do PSB, por apoiar Ciro Gomes e por ter sido vice de Vitor Buaiz. Chamando Casagrande de “maquiador”, Manato também martelou a tecla de que o socialista gastou R$ 350 milhões em propaganda ao longo de seu governo, em vez de investir esse dinheiro em outras áreas. Casagrande rebateu que Manato poderia dar o exemplo, cortando gastos de seu “mandato caro”.
Aridelmo Teixeira (PTB) bateu em Casagrande por vários flancos. Para tachá-lo como gestor incompetente, destacou índices que revelam piora do desempenho dos alunos da rede estadual durante o governo dele, fechamento de escolas, gasto público ruim, loteamento de cargos entre aliados políticos (“um monte de político desempregado”) em detrimento de critérios técnicos e o não cumprimento de promessas, sobretudo na mobilidade urbana. Em dado momento, Aridelmo usou todo o tempo da pergunta para Rose para expor números negativos de Casagrande, chamando de “ficção” o seu plano de governo. “Ué, sem pergunta?”, espantou-se Rose, que teve de responder mesmo assim.
Em outro momento, Aridelmo usou pergunta a um terceiro candidato para intensificar críticas a Casagrande, que recebeu da direção do debate o único direito de resposta. Neste, o ex-governador deu um dos seus poucos contragolpes. Foi duro, afirmando que Aridelmo fala o que alguém lhe dita por um ponto eletrônico – metáfora para dizer que o adversário está a serviço do governador Paulo Hartung.
Tabelando em alguns momentos, André Moreira (PSOL) e Jackeline Rocha (PT) também “bateram” naquele que, segundo afirmaram, “bateu” bastante em manifestantes entre 2011 e 2013, usando o BME para reprimir com violência protestos de rua. “Você bateu muito na população na rua”, tascou-lhe Moreira, classificando Casagrande como “idêntico ao governo Hartung”. Assim como Jackeline, o psolista também criticou Casagrande e o atual governo por remanejarem dinheiro que deveria ser investido em educação para cobrir o rombo da Previdência estadual.
Jackeline também cobrou Casagrande pela não conclusão de obras viárias, as quais ele volta a prometer agora. “Por que não fez quando era governador?”. E também criticou o governo do socialista como “autoritário”. “Primeiro comete a ação e depois vai dialogar.”
Acusando os golpes poucas vezes, mas traindo nervosismo em outros, Casagrande buscou destacar justamente que “tem a marca do respeito e diálogo”, além do mote maior de sua campanha: responsabilidade. Passou sem grandes avarias.
Ajudinha
Em frente à Rede Gazeta, horas antes do início do debate, o trio elétrico de apoiadores de Casagrande alternou a execução do jingle do ex-governador com os dos candidatos ao Senado apoiados por ele, Ricardo Ferraço (PSDB) e Marcos do Val (PPS). No caso de Aridelmo, o trio até estava lá. Os apoiadores, não.
Aridelmo com Bolsonaro
Complicado se intitular “nova política”, criticar “cabides de emprego” e declarar apoio ao vivo a um candidato à Presidência que está há 28 anos na Câmara praticamente sem produzir nada, que recebia auxílio-moradia mesmo tendo residência em Brasília, que já empregou ex-mulher no gabinete e empregava funcionária fantasma até outro dia.
Conselheiros
Dentro do estúdio da TV Gazeta, cada candidato só pôde ser acompanhado por um assessor. Ei-los:
- André Moreira: José Rabelo, assessor de imprensa;
- Aridelmo: Pedro Roque, marqueteiro;
- Casagrande: Flávia Mignone, marqueteira;
- Jackeline: João Martins, ex-deputado estadual e assessor parlamentar do deputado estadual Nunes (PT);
- Manato: Nerissa Neves, assessora de imprensa;
- Rose: Zuza Nacif, marqueteiro.
Abraço da esquerda
Pouco antes do início do debate, André Moreira e Jackeline trocaram um abraço bastante afetuoso. O candidato do PSOL usou uma gravata violeta, cor internacional do movimento feminista.
Tensão e alívio
Casagrande foi o primeiro a entrar no estúdio. Mas também foi o primeiro a sair. Precisou dar um pulinho no banheiro pouco antes do debate.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.