Apesar de o sol causticante e a água fria do oceano trazerem dias agradáveis de praia aos que estão de férias e, apesar da luminosidade dos dias de verão em janeiro no nosso hemisfério, são nebulosos os tempos que se anunciam. Entramos a semana sob a expectativa do julgamento do Lula, e os dois lados - o dos lulistas e o dos antilulistas -, anunciam manifestações no dia do julgamento. Meno male, pois vivemos numa democracia, e isso é permitido. Se fôssemos uma Venezuela, uma Cuba, um Irã ou uma Coreia, os opositores aos que estão no poder seriam mortos.
A democracia, disse Winston Churchill na Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947, é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história. Portanto, minha gente, ainda temos um judiciário independente e uma imprensa livre, mesmo que os órfãos da ditadura, seja ela de esquerda ou de direita, vivam querendo acabar com esses pilares de um regime democrático.
Aproveito os dias ensolarados e de férias para caminhar e nadar nas águas geladas do Atlântico, pela manhã, e, à tarde, quando a temperatura passa dos 30ºC à sombra, busco um lugar bem tranquilo e fresco, para ler.
Tenho lido bastante, pois me tornei sócio da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim, de Vitória, e lá encontro bons livros, atualizados, e uma competente e simpática equipe de bibliotecários, chefiada pela dinâmica Elizete Cazer. Foi lá que encontrei o livro “A artista de Xangai”, escrito pela professora e pesquisadora Jennifer Cody Epstein, da Universidade de Colúmbia, em Nova York, que conta a história da artista plástica Pan Yulang, uma chinesa que viveu na primeira metade do século XX e deixou impressionante legado com quatro mil obras, entre esculturas, esboços, pinturas a óleo e aquarelas.
Aos 13 anos, Pan Yulang, foi vendida por um tio viciado em ópio para um bordel de Xangai, sendo resgatada, anos depois, por Pan Zanhua, alto funcionário do governo, de quem se tornou concubina. Esse reconheceu seus talentos artísticos e financiou seus estudos de arte, permitindo-lhe estudar na Academia de Artes de Xangai e em Paris. Pan Yulang enfrentou a ira dos machistas da academia, por ser mulher; dos conservadores, pelos seus quadros de nus artísticos; e dos moralistas, por seu passado; no entanto, nunca abriu mão de suas convicções e de sua liberdade de criação artística. Teve de se exilar da China, em 1947, com a iminência da chegada ao poder dos radicais comunistas, e morreu em Paris, pobre e esquecida, em 1977. Até hoje sua obra é malvista na China, embora seja admirada pelos especialistas em arte, no mundo todo. Sua vida, retratada nesse livro, é uma contundente mensagem aos que querem censurar a arte, sua produção e divulgação e calar a liberdade de manifestação, nestes tempos que prenunciam outra “dark age”.
*O autor é professor e escritor