Mais de 380 mil pessoas podem ter feito apostas on-line no Espírito Santo. Desse total, 186 mil (49%) pertencem a famílias com renda de até dois salários mínimos (R$ 3.242). Os dados da pesquisa “Bets, consumo e saúde mental” foram apresentados pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES) nesta quarta-feira (30).
Conforme o levantamento da instituição, em 18 meses o volume de apostas cresceu 47,5%, e o valor movimentado teve alta de 48,5%. Somente em junho de 2026 foram feitas 7,3 milhões de apostas no Estado, com gasto total de R$ 397,7 milhões. Em janeiro de 2025, o montante registrado era de R$ 267 milhões.
O pico de apostas ocorreu em outubro de 2025, quando foram computados 9,3 milhões de jogos, totalizando mais de R$ 518 milhões.
O coordenador de pesquisas e do Observatório do Comércio da Fecomércio-ES, André Spalenza, comparou o volume de apostas com o orçamento anual de alguns municípios capixabas para este ano, como Nova Venécia (R$ 386 milhões) e Santa Teresa (R$ 166 milhões).
“Para entender a dimensão do assunto, em um único mês as apostas on-line movimentaram quase R$ 400 milhões no Espírito Santo, que é o orçamento de uma cidade como Nova Venécia, por exemplo. Também percebemos que esse fenômeno ganha escala de janeiro de 2025 a junho de 2026, com aumento de quase 50% no período”, comentou.
A pesquisa apontou ainda que cerca de 70 mil moradores do Estado podem ter desembolsado mais de R$ 500 em apostas em um único mês.
O gasto médio mensal dos apostadores capixabas com as plataformas de bets é de R$ 212,31. Em Vitória, a média fica em R$ 155,38. A maior despesa média por pessoa foi registrada em Ibatiba, na Região do Caparaó, chegando a R$ 279.
As apostas, segundo Spalenza, também disputam espaço diretamente com o consumo básico das famílias. O estudo da Fecomércio revelou que, do total de apostadores, cerca de 286 mil estavam ocupados no mercado de trabalho. Além disso, 34% têm ensino médio completo e 78% se declararam pretos, pardos ou indígenas.
Os jogos on-line deixam de ser apenas entretenimento quando passam a preocupar empresários e profissionais de recursos humanos. Prova disso são os números de atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) no Estado.
Entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 564 atendimentos relacionados ao vício em jogos, somando 247 cidadãos assistidos — principalmente homens jovens de baixa renda. Do total, 72,9% são do sexo masculino e 38% têm idade entre 25 e 34 anos.
“As bets não disputam apenas a renda das famílias. Seus efeitos se refletem no consumo, na saúde mental, nas relações de trabalho e na economia local”, ressalta o pesquisador.
A psicóloga Martha Zouain alerta que, no ambiente corporativo, os líderes devem ficar atentos a mudanças comportamentais das equipes. Alterações na rotina dos profissionais, como atrasos frequentes, oscilações de humor, irritabilidade e atritos com colegas, estão entre os sinais de alerta.
“Qualquer mudança que altere a rotina afeta a produtividade. Isso exige que a liderança busque entender o que acontece com esse colaborador para oferecer apoio no momento adequado. Entretanto, essa ajuda deve ocorrer sem julgamentos”, comenta.
A psicóloga Lucélia de Paula complementa a análise comparando o vício em jogos de aposta à dependência de drogas, destacando que ambas as condições disparam reações neuroquímicas semelhantes no cérebro.
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