Marcos Ramos*
Lá do alto de Salvador, entre quadros, livros, chocolates e queijo do reino, alcança o celular (vetusto e monofuncional) Roque Ferreira e me liga. Vale o adendo: Roque é pesquisador, escritor e compositor de uma obra admirável – as mais conhecidas: “Samba pras moças” e “Água da minha sede”, dois sucessos que encheram o carrinho de compras de Zeca Pagodinho. No adiantado do interurbano, Roque segreda que Maria Bethânia encomendou, há algum tempo, uma canção. E como de praxe, fez suas exigências. A primeira delas: a música deveria ser uma homenagem à deusa dos ventos. Para aqueles que não estão familiarizados, trata-se de Oyá, orixá a quem Bethânia foi consagrada no candomblé.
Explico: Bethânia é católica fervorosa, mariana de carteirinha, mas também é frequentadora do candomblé e “feita no santo”, como se diz. Isso é perfeitamente possível e mais comum do que você possa imaginar. A segunda exigência: a música não deve mencionar orixás porque será cantada dentro de igrejas. E, por mais que o catolicismo baiano penda para a religião afro, não vale para o resto do Brasil. Pelas igrejas do país afora é preciso ter parcimônia – sabe-se de padres que comem despacho, vide o tal Fábio de Melo. Resumo da ópera: Bethânia queria uma canção sobre Oyá que não mencionasse Oyá. Roque Ferreira foi lá e fez. A música chama-se “Santa Bárbara” e abre o disco "Encanteria".
O sincretismo afrocatólico é velho e merece outro texto. Por agora, Oyá é Santa Bárbara e fiquemos assim. E a história me catapulta até o início do século passado, para uma outra história - e essa descobri nas tardes de flâneur pelos arquivos da Biblioteca Nacional.
Segundo jornal Diário da Manhã, na quinta-feira, 13 de maio de 1917, o delegado de polícia Henrique Carvalho subiu o Morro da Gamela, na Praia do Suá, para dar uma dura em uma senhora chamada Honorata Maria de Souza. Um “pobre homem” (atenção: não é um “homem pobre”) denunciou Honorata e seus asseclas por “jurarem preparar-lhe várias formas de suplício”. Em bom português, o homem temia a macumba. O cândido foi identificado como Orozimbo Uchôa. Resultado, Mãe Honorata foi presa com direito a cobertura jornalística e tudo. O interessante vem a seguir: continuei seguindo as pistas de Mãe Honorata e encontrei no dia 3 de dezembro de 1918 a seguinte notinha, no mesmo jornal: “Secção Religiosa: Realiza-se amanhã, na capella do bispado, às 6 horas do dia, missa em louvor a Santa Bárbara que manda celebrar a devota Honorata Maria de Souza.”
E viva Bethânia, Honorata, Santa Bárbara e Eparrei, Oyá!
*O autor é escritor e professor