Sair
Assine
Entrar

  • Início
  • Sobre Bethânia, Honorata e o candomblé
Cultura

Sobre Bethânia, Honorata e o candomblé

Bethânia queria uma canção sobre Oyá que não mencionasse Oyá. Roque Ferreira foi lá e fez. A música chama-se "Santa Bárbara"

Publicado em 18 de Maio de 2018 às 20:13

Públicado em 

18 mai 2018 às 20:13

Colunista

Marcos Ramos*
Lá do alto de Salvador, entre quadros, livros, chocolates e queijo do reino, alcança o celular (vetusto e monofuncional) Roque Ferreira e me liga. Vale o adendo: Roque é pesquisador, escritor e compositor de uma obra admirável – as mais conhecidas: “Samba pras moças” e “Água da minha sede”, dois sucessos que encheram o carrinho de compras de Zeca Pagodinho. No adiantado do interurbano, Roque segreda que Maria Bethânia encomendou, há algum tempo, uma canção. E como de praxe, fez suas exigências. A primeira delas: a música deveria ser uma homenagem à deusa dos ventos. Para aqueles que não estão familiarizados, trata-se de Oyá, orixá a quem Bethânia foi consagrada no candomblé.
Explico: Bethânia é católica fervorosa, mariana de carteirinha, mas também é frequentadora do candomblé e “feita no santo”, como se diz. Isso é perfeitamente possível e mais comum do que você possa imaginar. A segunda exigência: a música não deve mencionar orixás porque será cantada dentro de igrejas. E, por mais que o catolicismo baiano penda para a religião afro, não vale para o resto do Brasil. Pelas igrejas do país afora é preciso ter parcimônia – sabe-se de padres que comem despacho, vide o tal Fábio de Melo. Resumo da ópera: Bethânia queria uma canção sobre Oyá que não mencionasse Oyá. Roque Ferreira foi lá e fez. A música chama-se “Santa Bárbara” e abre o disco "Encanteria".
O sincretismo afrocatólico é velho e merece outro texto. Por agora, Oyá é Santa Bárbara e fiquemos assim. E a história me catapulta até o início do século passado, para uma outra história - e essa descobri nas tardes de flâneur pelos arquivos da Biblioteca Nacional.
Segundo jornal Diário da Manhã, na quinta-feira, 13 de maio de 1917, o delegado de polícia Henrique Carvalho subiu o Morro da Gamela, na Praia do Suá, para dar uma dura em uma senhora chamada Honorata Maria de Souza. Um “pobre homem” (atenção: não é um “homem pobre”) denunciou Honorata e seus asseclas por “jurarem preparar-lhe várias formas de suplício”. Em bom português, o homem temia a macumba. O cândido foi identificado como Orozimbo Uchôa. Resultado, Mãe Honorata foi presa com direito a cobertura jornalística e tudo. O interessante vem a seguir: continuei seguindo as pistas de Mãe Honorata e encontrei no dia 3 de dezembro de 1918 a seguinte notinha, no mesmo jornal: “Secção Religiosa: Realiza-se amanhã, na capella do bispado, às 6 horas do dia, missa em louvor a Santa Bárbara que manda celebrar a devota Honorata Maria de Souza.”
E viva Bethânia, Honorata, Santa Bárbara e Eparrei, Oyá!
*O autor é escritor e professor

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Léo Silveira e o desenho que vai estampar o ônibus da Seleção Brasileira na Copa do Mundo
Capixaba vence concurso e vai estampar ônibus da Seleção Brasileira na Copa do Mundo
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante lançamento de pacote contra o crime organizado
Lula lança pacote de R$ 11 bilhões contra crime organizado
Rotatória do sistema viário Eldes Scherrer Souza, na Serra
Serra: de cidade dormitório a cidade para se viver

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados