Está cada vez mais comum vermos explícito nas redes sociais e ouvirmos discursos de líderes de opinião dizendo: você precisa se empoderar! Se pararmos pra pensar, no meio da palavra empoderar está o poder. Poderíamos, assim, dizer que o centro do empoderamento é o exercício do poder. Mas a pergunta é: será mesmo necessário se empoderar?
O termo ganha muita força no universo feminino, uma vez que muitas mulheres ainda desejam (necessitam) alcançar o seu lugar social e, por vezes, fazendo a opção pelo “empoderamento”. O termo ainda está muito atrelado às manifestações sociais. Os primeiros picos de busca por "empoderamento" ocorreram em 2013, à época dos protestos em junho daquele ano é o que mostra o Nexo Jornal.
Seguindo os meandros históricos, no ano de 1977, o psicólogo norte-americano Julian Rappaport cunhou o termo “empowerment” a partir da palavra “power” (“poder”) para defender que era preciso dar ferramentas a certos grupos oprimidos para que eles tivessem condições e autonomia de se desenvolver. Mais tarde, como tudo se transforma e se expande, esse termo conquista um grande público, como é o caso de nós brasileiros que chegamos a acreditar que o empoderamento está interligado até com a realização de um sonho.
É de suma importância refletirmos sobre o assunto e até mesmos colocar um ponto de interrogação na palavra em questão. No fundo, o empoderamento é poder, que não nasce de uma força, mas de uma fraqueza. Quase que ao invés de reconhecermos, acolhermos e enfrentarmos nossas limitações e fraquezas, optamos por outros caminhos, e isso dói. Todos nós somos possuidores de um poder que quando emPODERado deixa de cumprir com o equilíbrio e age com os excessos de um “poder que subiu à cabeça”.
E falando em cabeça, o mês de janeiro desponta com uma proposta (cor) branca de cuidar da nossa maior riqueza: a saúde mental. Os discursos de empoderamento nascem das debilidades de uma mente carregada de opressões que precisam ser cuidadas por quem entende. Há um tempo, eu ouvia dizer que “falar cura”. Que beleza! Mas a cura vem do “falar com a pessoa certa que sabe ouvir”.
Chegamos a 2020 e o termo continua muito nítido, palpável e coloquial. Será que precisamos nos empoderar para “conquistar um lugar”? Piamente, necessitamos ser mais nós, do nosso jeito, sem impor nem pôr, pois o gesto de conquista mais sublime em um humano não é o “poder” que impõe, mas o compreender o outro como resultado de uma história, e que não é preciso ser mais, nem estar a cima desse outro, ou submisso a ele, mas sim saber o meu lugar, o lugar dele, e caminhar juntos, ainda que com olhares diferentes. Feliz de quem sempre se recorda de Fernando Pessoa: “Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente”.