“Sempre me situei no campo de centro-esquerda.” Essa foi a resposta de Renato Casagrande (PSB) à pergunta direta que lhe fiz na sexta-feira (25), durante o 14º Encontro das Lideranças, em Pedra Azul: afinal, onde o governador se situa, hoje, do ponto de vista político-ideológico, neste Brasil tão polarizado e nesse seu PSB em transformação? Ele reafirmou sua identidade.
Filiado ao Partido Socialista Brasileiro desde os idos dos anos 1980, Casagrande se estabeleceu, há muitos anos, como uma das principais figuras nacionais do partido e, enquanto esteve sem mandato (de 2015 a 2018), foi um dos principais dirigentes nacionais da sigla. Hoje, como governador, algumas de suas medidas e posições não guardam perfeita sintonia com as da cúpula nacional. Existiria, nesse caso, alguma possibilidade, ainda que remota, de Casagrande se desfiliar do PSB? Ele responde taxativamente:
"Não, nunca. O PSB é um partido posicionado no campo de centro-esquerda. Não tem nenhuma necessidade de eu sair, porque há uma identidade do partido comigo. Não tem nenhum questionamento e nenhuma discordância nessa posição"
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ELOGIO DA MODERAÇÃO
As declarações de Casagrande foram dadas logo após a sua palestra de uma hora para empresários capixabas, que teve como vetor, precisamente, a defesa do centro político como caminho a ser seguido para superarmos a crise política nacional e fazermos o Brasil voltar a se desenvolver. A fala de Casagrande pode ser resumida como o “elogio da moderação”.
Ele conclamou os presentes a trocarem posições extremistas e radicalizadas por posições moderadas, ainda que sejam essas muito menos apaixonantes. E enfatizou a necessidade de buscarmos o equilíbrio e a racionalidade em meio à polarização da política nacional que persiste neste primeiro ano de governo Bolsonaro.
“Não é fácil fazer isso quando você sabe que o que apaixona as pessoas é a posição radicalizada.”
"Geralmente ninguém se apaixona pelas posições moderadas, mas pelas posições radicalizadas e até raivosas. Eu sei que a política racional, num momento entre eleições, não tem muito caminho a percorrer. Mas esse é o caminho que a gente tem que forçar, para que o Brasil possa trabalhar de maneira equilibrada para voltar a crescer"
“A agenda econômica do Brasil tem muitos pontos acertados, mas a agenda política do Brasil tem muitos pontos a ajustar ainda. Temos ainda esse ambiente de disputa e de intolerância muito forte na política brasileira. Não que isso venha de agora”, disse o governador, lembrando que a polarização política nacional começou há alguns anos, entre PT e PSDB, e se aprofundou em 2018, com o duelo de Bolsonaro e seus seguidores contra o PT.
“Essa polarização transbordou para a sociedade e, com a sociedade conectada em rede, isso se transforma em ambiente de disputa na sociedade. E esse ambiente afeta a agenda política.”
Segundo Casagrande, os líderes políticos e empresariais precisam trabalhar para harmonizar os tensionamentos na política e caminhar no centro da política - tanto faz se centro-esquerda (como ele) ou centro-direita.
“A agenda econômica tem menos incertezas do que a agenda política. Tanto é que o Congresso tem assumido protagonismo, o que é natural no parlamentarismo, mas não no presidencialismo. A economia aponta numa direção em que o setor empresarial se anima. Os juros tendem a ficar ainda mais baixos, o que é muito bom especialmente para a construção civil. Mas temos que fazer o ajustamento na política. É preciso que a gente trabalhe para harmonizar os tensionamentos na política.”
"Temos que deixar de lado todos os que têm posições de extrema direita ou de extrema esquerda. É preciso que a gente caminhe no centro da política, à direita ou à esquerda, mas que a gente possa caminhar nesse debate"
“DAREMOS SALTOS”
Essa preocupação de Casagrande tem um fundo muito prático: segundo ele, apesar de todo a instabilidade política nacional, o Espírito Santo vai bem, obrigado, tem R$ 6 bilhões de investimentos assegurados em seus quatro anos de governo, um Fundo Soberano já criado que representará uma poupança de R$ 400 milhões por ano, uma “cultura de responsabilidade fiscal” instituída e uma “cultura de gestão de médio e longo prazo”.
Com tais fatores aliados, o crescimento do Espírito Santo nos próximos anos está praticamente contratado. O que poderá detê-lo ou fazê-lo ser aquém do que poderia ser? Em uma palavra: Brasília.
“Se não tivermos tensionamento entre as instituições, nós aqui no Espírito Santo vamos poder dar passos muito largos. Vamos poder colher os frutos de um Estado muito bem organizado. O que ainda segura o nosso crescimento maior é a distância que existe entre o poder central e o Estado do Espírito Santo. Se a política nacional caminhar de maneira mais regular para a frente, vamos dar saltos muito maiores no Espírito Santo. [...] Se o governo federal cumprir com suas obrigações aqui, daremos saltos.”
É que, basicamente, muitos dos gargalos que impedem o Espírito Santo de atingir seu pleno potencial econômico dependem de investimentos da União e organização do governo federal. Ele deu o exemplo do setor portuário. “O furo mais baixo no tonel é a ausência de um porto de containers adequado no Estado. Esse é o nosso principal problema. Perdemos muita atividade portuária com isso. Essa é uma gestão que está no governo federal”, disse ele.
“O governo federal tem papel no porto, nas rodovias. Infelizmente não podemos resolver isso. Mas nós vamos resolver a nosso parte”, prometeu.
Está anotado no caderninho.