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Beatriz Seixas

Sem o dinheiro da Vale, ferrovia é só um sonho

Os números não deixam dúvidas de que, sem o investimento da mineradora, projeto da EF-118 dificilmente sairá do papel

Publicado em 25 de Julho de 2018 às 09:40

Públicado em 

25 jul 2018 às 09:40
Beatriz Seixas

Colunista

Beatriz Seixas Beatriz Seixas
Trem de passageiros da Estrada de Ferro Vitória a Minas Crédito: Divulgação Vale
Mais do que indignação, cobranças e reclamações da classe política e empresarial capixaba em relação ao caso da renovação antecipada da Estrada de Ferro Vitória-Minas (EFVM), os números não deixam dúvidas de que sem a Vale para realizar os investimentos na EF-118 – ferrovia que prevê ligar Vitória a Presidente Kennedy –, dificilmente esse projeto sairá do papel.
O governo federal afirma que os recursos vão vir por outro meio, mas depois de tantas promessas furadas ao longo da relação histórica entre o Planalto e o Espírito Santo, especialmente no quesito infraestrutura, só mesmo sendo ingênuo para acreditar que a União vai resolver um gargalo que exige recursos bilionários.
No início deste mês, o secretário de Coordenação de Projetos da Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Tarcísio Freitas, explicou que o dinheiro viria da renovação antecipada de outro negócio, da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), que é controlada pela VLI.
O problema é que se trata de uma malha férrea muito menos demandada do ponto de vista da movimentação de cargas, com trechos de baixíssimo interesse e, consequentemente, pouco competitiva, ou seja, o valor de outorga certamente não chegará nem perto do que a Vale pagará pela renovação da Vitória-Minas e também pela Estrada de Ferro Carajás (EFC), no Pará, ambas prejudicadas pela transferência do investimento da Vale para a construção da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico).
Um dado que deixa clara a diferença de potencial econômico de cada uma delas é o lucro líquido que apresentaram no primeiro trimestre deste ano, conforme apontam seus respectivos balanços financeiros. Enquanto a Vitória-Minas teve um resultado positivo de R$ 98,2 milhões e a Carajás de R$ 415,3 milhões, a Centro-Atlântica amargou um prejuízo de R$ 64,2 milhões.
Se pegarmos o recorte de um período maior, no caso as demonstrações financeiras de 2017, a diferença entre as duas estradas de ferro da Vale e a da administrada pela VLI permanecem grandes especialmente se for levado em conta a extensão dessas ferrovias.
O número chega parecer errado tamanha a diferença entre a FCA e os outros dois modais em questão. Ao considerarmos o lucro por quilômetro, o da Vitória-Minas é 770 vezes superior ao obtido pela Centro-Atlântica no ano passado. Enquanto a EFVM lucrou por quilômetro R$ 724,5 mil e a EFC R$ 1,2 milhão, a FCA ganhou apenas R$ 940.
Não faltam números para reforçar o abismo entre a capacidade dessas ferrovias. A movimentação de cargas é só mais um deles. Em 2017, a Vitória-Minas movimentou 117,9 milhões de toneladas, entre minério de ferro, pelotas, aço e carvão. Na Carajás foram transportadas 173,3 milhões de toneladas e na Centro-Atlântica apenas 37,8 milhões de toneladas.
O governo federal diz que ainda é preciso fazer os cálculos do valor da outorga da FCA, que nos últimos anos tem até devolvido à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) alguns trechos considerados antieconômicos. Depois, quando chegar aos números para a renovação antecipada da Centro-Atlântica, a União vai avaliar de onde virá o restante do dinheiro para complementar o investimento na EF-118.
Bom, aí todo mundo já imagina o desfecho da história. A missão de construir uma ferrovia no Estado para melhorar a nossa infraestrutura estará apenas começando, e o pior, com prazo a perder de vista.
MANIFESTAÇÃO
A Vale teve até ontem para se manifestar na ação civil pública movida pelo governo do Estado, que contesta a aplicação dos recursos da renovação na Fico. Até então, publicamente, a mineradora se limitava a dizer que esse processo vinha sendo analisado pelo seu conselho de administração. Já a União tem que falar sobre o caso até o dia 1º de agosto. A partir daí, a Justiça terá condições de avaliar os argumentos dos atores envolvidos e definir os rumos desse impasse.
NA BAGAGEM
O presidente da Findes, Léo de Castro, volta hoje do Japão após participar da Plenária Anual do Conselho Empresarial Brasil-Japão. Segundo ele, os asiáticos querem investir em infraestrutura no Brasil, e o ES está no radar. A grande questão – como sempre – é o custo Brasil, que coloca a indústria nacional em desvantagem competitiva.
TRISTE COMPARAÇÃO
Léo de Castro contou que um executivo da Toyota fez uma comparação do custo de produzir no Brasil e no México. E advinha a constatação? Energia por aqui é 50% mais cara, logística é de baixa qualidade e a carga tributária é altíssima e complexa. Outro dado desanimador é a posição do país em relação à infraestrutura, como mostra o gráfico abaixo.
397 TRABALHADORES OFFSHORE
É o número de funcionários da Petrobras que vão chegar ao Estado até setembro. Eles deixarão de compor os ativos de Roncador e Albacora (na parte fluminense da Bacia de Campos) para integrar a UO-ES. Além deles, 102 profissionais serão lotados no Edivit, prédio na Reta da Penha, para atuar na área administrativa.
DESENCALHOU
Finalmente o Porto de Vitória vai poder operar com navios maiores. A notícia da homologação é boa, mas a movimentação dessas embarcações só deve acontecer mesmo a partir de setembro.
NÃO PEGOU BEM
Lamentável o acidente de trabalho ontem com três mortes em Portocel, que além de ter demorado 3h30 para se posicionar sobre o ocorrido, errou ao divulgar o nome de uma das vítimas.

Beatriz Seixas

Beatriz Seixas Beatriz Seixas

Jornalista de A Gazeta, há mais de 10 anos acompanha a cobertura de Economia. É colunista desde 2018 e traz neste espaço informações e análises sobre a cena econômica

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