Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

  • Início
  • Sem dívidas com princesa Isabel
História

Sem dívidas com princesa Isabel

As palavras sintetizam a experiência de resistência e de generosidade de uma cultura que abraça e negocia, ao invés de violentar

Publicado em 12 de Maio de 2018 às 18:19

Públicado em 

12 mai 2018 às 18:19

Colunista

Quadro "Capoeira" (1835), de Johann Moritz Rugendas Crédito: Domínio público
Marcos Ramos*
 “Da rampa do Mercado Modelo se vê ao longe um ajuntado baixo de terras circundando o golfo e sarapitando pela brancura das velas dos saveiros que entram e saem de suas enseadas e varadouros: é o Recôncavo.” As linhas são de Roque Ferreira e foram registradas no raro ensaio “Terreiro de Samba Chula”, um livro admirável sobre a cultura gestada no centro da Bahia. A verdade é que quem adentra seus limites, por terra - roçando as porteiras de fazendas na estrada, ruínas sobre antigos massapés -, ou por águas temperadas - lambendo os doces beirais dos engenhos velhos melados de sangue e de cana às margens do Rio Paraguaçu -, encontra no Recôncavo da Bahia o umbigo do Brasil.
A festa é para os Homens e para os Orixás. Na feira, o alto falante preso no alto de um poste de madeira ecoa a música de um dos filhos ilustres da terra, Caetano Veloso
Em Cachoeira, Iguape, Jacuí ou Santo Amaro, calçadas pequenas emolduram ruas estreitas, o chão irregular tem pedras lisas rejuntadas com suor africano. Qualquer um dos pequenos sobrados tem raras janelas, em geral duas, que figuram como olhos acesos, permanente vigília, ao lado de uma porta de madeira colorida muitas vezes entreaberta. Com sorte, pelas frestas, é possível ver um corredor de pouca luz, adornado de fotos e santos, contrastando com um largo terreiro de chão batido ao fundo, solar e sonoro. Lá, atabaques, pandeiros, violas, ganzás e aquelas mesmas bocas pretas mencionadas por Castro Alves entoam um samba de roda: “Vou aprender a ler/ para ensinar meus camaradas”. As palavras sintetizam a experiência de resistência e de generosidade de uma cultura que abraça e negocia, ao invés de violentar. Um povo que uniu Santa Bárbara a Iansã, Oxum a Nossa Senhora da Ajuda, Iemanjá a Nossa Senhora dos Navegantes, Oxalá a Jesus Cristo.
Enquanto o padre brinca de ofender e se desculpar na igreja ou nas redes sociais, na última semana, o Recôncavo acordou muito cedo para preparar a mais importante festa do seu povo. Em Santo Amaro da Purificação, a semana é de preceitos, todo ato é sagrado e devocional. Pelas ruas da cidade, entre contas coloridas e panos da costa, desfila um povo altivo. A festa é para os Homens e para os Orixás. Na feira, o alto falante preso no alto de um poste de madeira ecoa a música de um dos filhos ilustres da terra, Caetano Veloso: “Dia 13 de maio/em Santo Amaro/na festa do mercado/os negros celebravam/talvez ainda o façam/o fim da escravidão".
Durante três dias e três noites, os netos, bisnetos, tataranetos... celebram a força dos seus ancestrais cantando em português, iorubá, fon ou quimbundo, as cantigas bantu, jeje e nagô, os sambas de rodas, capoeiras e maculelês e repetem com grande força que nada devem à princesa Isabel.
 *O autor é escritor e professor de Literatura Brasileira

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 02/05/2026
As atividades do projeto acontem em Vila Velha
A vida depois da prisão: projeto do ES apoia mulheres a recomeçar
Empadão de frango
Receita de empadão de frango é dica para o almoço de fim de semana

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados