No último sábado, neste mesmo espaço, um colunista habitual, escrevendo sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco, afirmou que estamos diante de “lágrimas seletivas”. Seríamos um país de hipócritas que chora por Marielle enquanto pessoas morrem sem que ninguém lembre. Nas redes sociais, adeptos dessa opinião já tinham se apressado em compartilhar notícias de outros homicídios de menor repercussão. Muitos se valeram de um caso supostamente ignorado envolvendo uma médica morta a tiros na Linha Vermelha, no Rio de Janeiro. O fato, porém, ocorrera em junho de 2016, e não na semana passada.
Ao citar o sociólogo Émile Durkheim, o colunista lembrou, com razão, que também a morte é um fato social. Com efeito, a repercussão social da morte é diretamente proporcional à representação coletiva construída em torno da vítima. As pessoas até podem ser consideradas iguais entre si, mas dificilmente o que lhes acontece nos sensibiliza da mesma forma, por vários motivos, entre os quais a representação social a seu respeito. Assim é que, após o ataque terrorista à casa de espetáculo Bataclan, em Paris, em 2015, muitos se comoveram como nunca o fizeram diante de episódios semelhantes e frequentes fora da Europa.
Ao que tudo indica, estamos diante de um evidente crime político. Foi uma execução destinada a “passar um recado”, e é isso o que lhe confere uma dimensão incomparavelmente maior do que qualquer outro homicídio
Logo, precisaríamos inverter o argumento do colunista para perceber a singularidade envolvendo a morte de Marielle: as manifestações que se seguiram ao seu assassinato se diferenciam de outras justamente pelo fato de que uma mulher, negra, criada e residente na periferia foi capaz de nos sensibilizar e mobilizar como poucas vezes se viu, num país em que, de modo geral, a representação social mais comum em torno de pessoas com esse perfil quase sempre lhes reserva um espaço de completa invisibilidade. Bastaria lembramos da população carcerária brasileira, de quem pouco ou nada se ouve falar, por ter sido simplesmente esquecida no cárcere; ou mesmo comparar a repercussão social provocada pelas mortes do médico Jaime Gold e do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, também no Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo, a morte da vereadora realmente não foi um “crime qualquer”. Todavia, não porque Marielle fosse filiada ao PSOL ou adepta às causas LGBT, mas, sim, porque o assassinato em questão diz respeito a uma parlamentar no exercício do mandato, dona da quinta maior votação na última eleição municipal, crítica da violação cotidiana dos direitos humanos em regiões de periferia do Rio, numa área que se encontra em plena intervenção federal, sob coordenação de um general do Exército. Ao que tudo indica, portanto, estamos diante de um evidente crime político. Foi uma execução destinada a “passar um recado”, e é isso o que lhe confere uma dimensão incomparavelmente maior do que qualquer outro homicídio, em que pese, no limite, o fato de que em ambos os casos, lamentavelmente, uma vida é ceifada.
*O autor é doutor em Ciências Sociais e professor do mestrado em Sociologia Política da UVV