A maior tragédia já ocorrida nas estradas capixabas parece ter se perdido na memória de quem deveria se mobilizar para que acidentes tão graves jamais se repitam. Completou-se um ano desde que 23 vidas foram destruídas numa colisão de dimensões cinematográficas que envolveu uma carreta com sobrecarga de granito, um ônibus e duas ambulâncias na BR 101, em Guarapari. As imagens dos veículos em chamas e da rocha no meio da rodovia ainda impressionam. Tanto que deveriam servir de lição.
Contudo pouca coisa mudou de lá para cá. Basta ver como as rédeas continuam soltas para as transportadoras, que seguem não controlando as jornadas dos motoristas, uma exigência da lei desde 2012. Condutores profissionais, pela legislação, não podem passar das 12 horas de serviço. O desgaste pode ser fatal; um motorista que extrapola os próprios limites físicos é um risco em potencial. O Ministério do Trabalho vem fiscalizando 80 empresas de transporte do setor de rochas e adiantou que o controle continua falho. Talvez seja o momento de impor punições mais rigorosas.
O excesso de carga e as más condições dos veículos também são ameaças para quem circula pelas estradas. Os flagrantes de motoristas em desvios para evitar a fiscalização continuam, uma irresponsabilidade sem igual. E o pior é que a vigilância nas estradas ainda é ineficiente: faltam profissionais e estrutura necessária, como balanças móveis, que tornariam a supervisão mais ágil.
A tragédia da BR 101 deveria ter motivado um pacto que envolvesse não só as empresas transportadoras e o poder público, mas o próprio setor de rochas, cuja relevância para a economia capixaba é incontestável. Ainda dá tempo. Interesses precisam ser equalizados, associando produtividade à racionalidade necessária para garantir a segurança de quem está na estrada e, ao mesmo tempo, contribuir para a geração de riquezas.