Integrante de um governo que tem ojeriza às artes, a ministra Damares Alves se valeu de um teatro – com uma encenação pífia – para lançar a campanha “Se uma mulher perde a voz, todas perdem”, no último dia 25, Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra a Mulher. A ministra ficou propositalmente em silêncio durante uma coletiva de imprensa sob a justificativa de demonstrar como é difícil esse silêncio das mulheres. Estratégia pior não poderia ter sido escolhida.
A ação do governo, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, está na contramão do que está acontecendo nas ruas. Mais uma vez mulheres do mundo todo estão se movimentando nas ruas e denunciando todos os abusos e as agressões sofridas, inclusive pelo Estado.
Recentemente, mulheres chilenas deram início a uma performance para denunciar ações policiais truculentas e a omissão do Estado em atender às demandas referentes às violências praticadas contra as mulheres. Essa performance, chamada de “Um violador em seu caminho”, tomou proporções mundiais e foi adaptada para cada realidade e repetida em diversos países e cidades.
No domingo, foi a vez de mulheres do Espírito Santo se reunirem e fazerem a performance delatando as violências cotidianas em razão do simples fato de serem mulheres. O grito de denúncia foi o seguinte:
"O patriarcado é um juiz / Que nos julga por nascer / E o nosso castigo / É a violência que não vê / O patriarcado é um juiz / Que nos julga por nascer / E o nosso castigo / É a violência que se vê
Feminicídio / Impunidade para o assassino / É agressão / O estupro, ocultação
E a culpa não era minha, nem de onde eu estava, nem de como me vestia (4x) / O estuprador é você (4x)
É a PM / Os juízes / O Estado / O presidente
O Estado opressor é um macho estuprador (4x) / O estuprador é você (4x)
Minha pequena / Dorme tranquila / O agressor é da própria família / Estado elitista / Forma racista / E a vida preta em dobro se arrisca / Quem cuida de mim não é a força nacional / São mulheres amigas lutadoras feministas"
Da mesma forma como aconteceu com o #NemUmaAMenos, #MeToo e #EleNão, mulheres estão se movimentando, dando voz aos problemas enfrentados diariamente dentro de suas casas, nos locais de trabalho e frente ao Estado, seja na forma das forças policiais, do Executivo ou do Judiciário, deixando explícito que ainda que alguma perca a voz, há milhares que falarão por ela. É o caso de Marielle, sempre presente!