Henrique Herkenhoff*
Anunciado que o quase-ex-juiz federal Sérgio Moro pretende aceitar o cargo de Ministro da Justiça do próximo governo, logo surgem debates acalorados sobre dois temas secundários, enquanto os principais ficam de lado.
Alguns, muito natural, mas lastimavelmente, tentam sustentar a delirante tese de que o juiz, quatro ou cinco anos atrás, iniciou uma investigação já prevendo o impeachment da Presidente Dilma e de olho em participar do governo do mais improvável dos candidatos... A estes não direi nenhuma palavra. Estou concentrado em encontrar essa bola de cristal.
Outros, com mais razão, questionam o sacrifício pessoal que se lhe impõe – como, de resto, se impôs ao governador eleito do Rio de Janeiro: abrir mão não apenas de um salário muito mais alto, mas também da absoluta estabilidade da carreira na magistratura e de sua aposentadoria integral.
Tudo isso baseado não em uma proibição legal, mas na falta de uma autorização expressa. Juízes e promotores deste país são como aves em uma gaiola de ouro, condenados a décadas de uma rotina tediosa e estafante, cujo único escape é o magistério jurídico. Entretanto, podemos ficar despreocupados: ele é muito mais que apenas um corpinho bonito e jamais morrerá de fome. É isso: não há mais Cavaleiros Templários; Moro precisou decidir entre se tornar um guerreiro ou continuar um monge.
Mais importante, porém, são os destinos que começam a ser traçados para o país e a leitura do discurso contido nesse convite. Ao fazer a sua live logo após a eleição, Bolsonaro tinha em mão uma Bíblia, uma Constituição e... uma biografia de Churchill. Parece ter lido os três. Entregar o Ministério da Justiça a Sérgio Moro significa não abandoná-lo aos interesses corporativos e à visão de mundo enviesada de seus primeiros apoiadores; significa também que finalmente a segurança não prestará atenção apenas aos jovens negros da periferia, mas também para os criminosos do colarinho branco, muito mais nocivos e sempre despercebidos pela sociedade; significa responder à suspeita de que seu governo não respeitará os Direitos Humanos.
Se Moro, tendo passado a vida na magistratura, está pronto para o cargo? Ninguém está. Como todos os que deram grandes passos, precisará alçar-se no ombro de gigantes. Que posso dizer? O presidente eleito, de um único golpe, tranquilizou todos os meus temores e ouviu o que Deus disse a Moisés: que cada espião que escolheres seja um príncipe entre sua tribo (Números, 13:2).
*É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV