A depressão nem sempre se apresenta da forma como muitas pessoas imaginam. Tristeza constante, isolamento e falta de vontade de realizar atividades são sinais conhecidos, mas o transtorno também pode se manifestar por mudanças mais discretas no comportamento e na rotina.
Durante o Setembro Amarelo, campanha que amplia o debate sobre saúde mental e prevenção ao suicídio, compreender esses sinais pode ajudar na identificação precoce do sofrimento psicológico e na busca por suporte adequado.
Para o psicanalista, mestre em neuropsicologia e gestor de projetos científicos do CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, Adriel Silva Weber, a depressão pode apresentar manifestações que passam despercebidas, principalmente quando a pessoa continua trabalhando, estudando e mantendo aparentemente sua rotina.
“A depressão é um dos grandes desafios de saúde mental da atualidade, mas identificar os primeiros sinais, inclusive aqueles menos conhecidos, é fundamental para que a pessoa possa buscar ajuda e iniciar o tratamento adequado”, destaca.
A seguir, confira os sinais menos óbvios da depressão que merecem atenção.
1. Irritabilidade constante
Nem sempre a depressão aparece em um primeiro momento como tristeza. Em algumas pessoas, principalmente quando existe dificuldade para reconhecer ou expressar emoções, o sofrimento pode se manifestar por irritação frequente, impaciência e reações desproporcionais a situações cotidianas. Mudanças persistentes no comportamento merecem atenção, especialmente quando não havia anteriormente aquele padrão de reatividade.
“A pessoa pode não dizer que está triste, mas pode apresentar uma mudança significativa na forma como reage ao mundo. A irritabilidade persistente também pode ser uma manifestação de sofrimento emocional”, explica Adriel Silva Weber.
2. Cansaço que parece não passar
A sensação de esgotamento constante também pode afetar pessoas com depressão. Mesmo após dormir ou descansar, algumas atividades simples podem parecer exigir um esforço muito maior. O problema não é apenas físico. Alterações emocionais podem afetar a motivação, a disposição e a capacidade de manter a rotina.
Quando esse cansaço persiste por muito tempo e passa a comprometer atividades que antes eram realizadas normalmente, é importante observar o contexto e procurar avaliação profissional.
3. Mudanças no sono
Dormir demais ou ter dificuldade para dormir pode representar uma mudança importante na rotina. Algumas pessoas passam a acordar várias vezes durante a noite, enquanto outras têm dificuldade para sair da cama.
“O sono possui uma relação direta com o funcionamento emocional e cognitivo, por isso, alterações persistentes, principalmente quando acompanhadas de outras mudanças de comportamento, não devem ser ignoradas”, alerta o psicanalista.
4. Perder o interesse sem perceber
Um dos sinais que pode se instalar de forma gradual é a perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer. A pessoa pode continuar participando de encontros, praticando hobbies ou cumprindo compromissos, mas passa a sentir que aquelas experiências perderam o significado ou deixaram de gerar satisfação.
“Às vezes, a mudança acontece gradualmente. A pessoa continua fazendo as coisas porque precisa, mas deixa de sentir envolvimento ou prazer. Essa perda de interesse pode ser um sinal importante quando se mantém ao longo do tempo”, ressalta.
5. Dificuldade de concentração e esquecimentos
A depressão também pode afetar processos cognitivos. Dificuldade para manter a atenção, tomar decisões, organizar tarefas ou lembrar informações pode aparecer durante períodos de sofrimento psicológico. Isso pode levar algumas pessoas a acreditarem que estão apenas distraídas, sobrecarregadas ou perdendo produtividade, sem perceber que a mudança pode estar relacionada ao estado emocional.
Não é preciso esperar o quadro piorar
Os sinais isolados não significam automaticamente que uma pessoa tenha depressão. Cansaço, alterações no sono, irritabilidade e dificuldades de concentração também podem estar relacionados a diversas outras condições e situações da vida. Mas, quando essas mudanças persistem, causam sofrimento ou começam a prejudicar relacionamentos, trabalho, estudos e outras áreas da rotina, procurar ajuda especializada pode ser importante.
“O principal é não normalizar um sofrimento que está se prolongando. A saúde mental precisa ser observada com a mesma atenção que damos à saúde física. Quanto antes uma pessoa compreende que algo mudou e busca o suporte adequado, maiores são as possibilidades de lidar melhor com a situação”, conclui Adriel Silva Weber.
Por Angela Rocha