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Câncer de próstata não é sentença de impotência nem de incontinência urinária

Evolução da cirurgia robótica permite discutir não apenas cura, mas também preservação da qualidade de vida

Publicado em 08 de Setembro de 2026 às 16:14

Portal Edicase

Publicado em 

08 set 2026 às 16:14
Cada paciente apresenta características próprias, e o tratamento deve considerar o tumor, a anatomia e as condições individuais (Imagem: Pixel-Shot | Shutterstock)
Cada paciente apresenta características próprias, e o tratamento deve considerar o tumor, a anatomia e as condições individuais Crédito: Imagem: Pixel-Shot | Shutterstock

O Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano entre 2026 e 2028, segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Excluindo os tumores de pele não melanoma, esse é o tipo de câncer mais incidente entre os homens brasileiros.

Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento, uma pergunta ainda domina muitas consultas: “Doutor, eu vou ficar impotente? Vou perder urina?”. Para o urologista e cirurgião robótico Ricardo Brandina, professor adjunto do Departamento de Urologia da PUCPR e coordenador do Programa de Cirurgia Robótica do Hospital Evangélico de Londrina, esse medo muitas vezes chega antes mesmo das dúvidas sobre a própria cura.

“Quando um homem recebe o diagnóstico de câncer de próstata, ele não pensa apenas na doença, e sim na esposa, na vida sexual, no trabalho, na possibilidade de usar fraldas, naquilo que será sua vida depois do tratamento. Precisamos tratar o homem inteiro, e não apenas a próstata”, afirma o professor.

Uma das principais mudanças da medicina nos últimos anos, segundo o especialista, foi ampliar a discussão sobre os resultados esperados após o tratamento. “O meu objetivo é um só: buscar a cura do câncer com máxima precisão e segurança. E, quando existe indicação cirúrgica, fazer isso preservando ao máximo o controle da urina e a vida sexual do paciente”, afirma urologista e cirurgião robótico Ricardo Brandina.

Tecnologia ajuda, mas o robô não opera sozinho

A evolução da cirurgia robótica ampliou as possibilidades para pacientes com indicação cirúrgica. As plataformas utilizadas atualmente oferecem ao cirurgião visão tridimensional ampliada do campo operatório, instrumentos articulados e recursos que permitem movimentos mais precisos em uma região anatômica onde nervos, vasos sanguíneos, uretra e estruturas relacionadas à continência estão próximos.

A tecnologia, entretanto, não elimina a necessidade de experiência médica. “O robô não faz a cirurgia. Ele não decide onde cortar, o que preservar ou qual plano anatômico seguir. Quem opera é o cirurgião. A tecnologia potencializa aquilo que o médico sabe fazer. Por isso, treinamento, experiência e equipe continuam sendo determinantes”, explica o urologista.

Impotência e incontinência não são consequências obrigatórias

Cirurgias para câncer de próstata podem provocar alterações na continência urinária e na função erétil, mas os resultados variam conforme características como idade, função sexual prévia, anatomia, localização e extensão do tumor, além da possibilidade de preservação dos feixes neurovasculares e técnica empregada.

Por isso, não é possível prever o resultado de maneira igual para todos os pacientes. “Não existe promessa de resultado igual para todos. É preciso levar em consideração anatomia, biologia do tumor e individualidade. Mas é errado o homem receber um diagnóstico e imaginar automaticamente que ficará impotente ou incontinente pelo resto da vida”, ressalta Ricardo Brandina.

Quando existe indicação oncológica e condições anatômicas favoráveis, técnicas de preservação dos feixes neurovasculares podem ser utilizadas para tentar manter as estruturas relacionadas à função erétil. Estratégias cirúrgicas voltadas à reconstrução do aparelho urinário também podem contribuir para a recuperação da continência. É justamente a possibilidade de discutir controle da doença e qualidade de vida de forma conjunta que mudou a conversa com os pacientes.

Informação ajuda a tomar decisões antes e depois do diagnóstico

O câncer de próstata frequentemente não provoca sintomas nas fases iniciais. Por isso, a ausência de sinais não deve ser interpretada como garantia de que não há doença. Ao mesmo tempo, alterações urinárias podem estar relacionadas a condições benignas, como a hiperplasia prostática.

O INCA aponta idade avançada, histórico familiar e excesso de gordura corporal entre os fatores associados ao maior risco de desenvolvimento da doença. A decisão sobre investigação com PSA (Antígeno Prostático Específico), exame físico e outros recursos deve ser individualizada, levando em conta idade, histórico familiar, fatores de risco, expectativa de vida e possíveis benefícios e riscos da investigação.

“Se existe histórico familiar ou algum fator de risco, o homem precisa conversar com o urologista e entender qual é o momento adequado para investigar. A informação não serve para gerar pânico, mas sim para permitir que o paciente tome uma decisão consciente”, afirma.

Quando há alterações que precisam de investigação, exames como a ressonância magnética multiparamétrica podem auxiliar na avaliação da próstata e na definição dos próximos passos, inclusive na decisão sobre a necessidade de biópsia.

Manter a atenção à saúde da próstata pode ajudar na identificação precoce de possíveis alterações (Imagem: New Africa | Shutterstock)
Manter a atenção à saúde da próstata pode ajudar na identificação precoce de possíveis alterações Crédito: Imagem: New Africa | Shutterstock

Atitudes importantes para o homem cuidar da próstata

A saúde da próstata merece atenção ao longo da vida. A seguir, confira cinco atitudes que podem ajudar a manter os cuidados em dia!

1. Conheça seu histórico familiar

Ter pai ou irmão que apresentou câncer de próstata, especialmente em idade mais jovem, pode aumentar o risco e deve ser informado ao médico.

2. Não espere sintomas para conversar sobre saúde da próstata

Tumores localizados podem evoluir silenciosamente. A ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de doença .

3. Discuta PSA e exame físico com seu médico

A decisão sobre quando investigar deve ser individualizada de acordo com o perfil de risco de cada homem.

4. Evite interpretar o PSA isoladamente

Alterações no PSA podem ocorrer por diferentes motivos. Um resultado elevado não significa automaticamente a presença de câncer.

5. Se houver suspeita, investigue de maneira adequada

Ressonância multiparamétrica, biópsia e outros exames podem ser indicados conforme a situação clínica de cada paciente.

Novembro Azul coloca qualidade de vida no debate sobre câncer de próstata

Com a aproximação do Novembro Azul, período de conscientização sobre a saúde masculina, a discussão sobre câncer de próstata ganha espaço na imprensa e nas campanhas de saúde. A mensagem, porém, pode ir além da recomendação para que os homens façam exames.

O diagnóstico precoce, a avaliação individualizada e o conhecimento sobre as possibilidades terapêuticas também fazem parte da conversa. Para quem recebe o diagnóstico, entender que o tratamento pode ser planejado considerando tanto o controle do câncer quanto a qualidade de vida ajuda a reduzir o peso emocional da doença.

“O diagnóstico de câncer de próstata não precisa significar o fim da história de um homem. Quando a doença é identificada em um cenário favorável e existe indicação adequada, é possível vencer o câncer preservando ao máximo a qualidade de vida. Depois disso, queremos que esse homem volte para sua família, para seus planos e para tudo aquilo que ainda deseja viver. É aí que começa uma nova história”, conclui o especialista.

Por Carolina Lara

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