Como registramos aqui dia desses, Rose de Freitas e Paulo Hartung estavam jogando “quem pisca primeiro?”. Após meses encarando-se nesse guerra de nervos, Hartung venceu a parada. Rose foi quem não resistiu e trocou o PMDB (no qual Hartung seguirá soberano) pelo Podemos, no último sábado, limite do prazo que todos os pré-candidatos tinham para definir os respectivos partidos pelos quais disputarão o processo eleitoral.
Rose resistiu o quanto pôde. E, enquanto tentava não piscar, realizou um sem-número de gestos a fim de pressionar PH a ceder primeiro. Em sua última entrevista à coluna, na inauguração do novo terminal do Aeroporto de Vitória, dia 29 de março, reafirmou seu firme propósito de fincar pé no PMDB: só desistiria de ser candidata ao governo estadual pela sigla se derrotada em convenção partidária, no mês de julho. Ao longo da semana passada, a senadora emitiu, via assessoria de imprensa, notas nas quais afirmava que caciques nacionais da tribo de Temer (o próprio, inclusive) defenderam que ela ficasse no PMDB. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, teria apontado Rose como a candidata que eles gostariam de ver escolhida para o governo do Espírito Santo este ano.
No último sábado, contrariando e fazendo ruir tudo isso, veio a piscada.
Rose blefou? Aparentemente, sim. Um blefe continuado, aliás. O que mudou tão radicalmente de sexta para sábado? Jucá ter dito que a preferência do PMDB nacional a governador do Espírito Santo recai sobre o atual ocupante do cargo, como em qualquer lugar do Brasil desde o instituto da reeleição? É uma das alegações de Rose em sua carta de desfiliação. Mas essa “preferência” do presidente nacional do PMDB era algo natural. Mais do que natural, já era sabido.
No dia 26 de fevereiro, esta coluna já alertava no título: “Rose candidata? depende de Hartung”. Naquela edição, registramos: “Informação de dentro do gabinete do senador Romero Jucá (...): a senadora Rose de Freitas tem o ok da cúpula do partido para ser candidata ao governo do ES... Mas só se o governador Paulo Hartung não quiser disputar a reeleição pelo partido e se der seu aval pessoal à candidatura de Rose. Ou seja: a decisão cabe a Hartung, e a cúpula nacional do partido dará prioridade a ele caso queira emendar mais um mandato no Palácio Anchieta”.
Parece evidente que Rose não decidiu mudança tão radical da noite para o dia. Certamente já vinha mantendo tratativas com o Podemos (e outros partidos). Na última quinta-feira, às 2h52 da madrugada, a deputada federal Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, respondeu à coluna: “Não faço ideia (se Rose vem). Ninguém sabe o que ela vai fazer”.
Acontece que Rose pagou para ver e esperou, até o último momento possível, para conferir se sua aposta se cumpriria: a aposta de que Hartung “piscaria primeiro”, saindo do PMDB e deixando a avenida peemedebista desimpedida para ela ser candidata, sem adversários internos nem obstáculos entre ela e o registro de sua candidatura, em agosto.
Justiça seja feita, Rose jamais emitiu juízo público sobre os passos que esperava de PH. Sempre que provocada a declarar sua expectativa, preferia se esquivar, dizendo que não lhe cabia emitir opinião sobre as decisões do governador. Porém, sob anonimato, mais de um aliado da senadora revelou durante esse período que, se ela se mantinha firme no PMDB e irredutível no propósito de levar a decisão para convenção era porque, no fundo, estava piamente convencida de que Hartung sairia do partido.
Bem, Hartung não saiu e, jogando parado, praticamente empurrou Rose para fora, o que fez com que a senadora se visse impelida a tomar a iniciativa num caso clássico de “alguém tem que ceder”, “este espaço é pequeno demais para nós dois” e “se não sai Vossa Excelência, saio eu”. Cedeu e procurou outro caminho, por uma questão de pragmatismo e sobrevivência eleitoral: para manter vivo o sonho de estar no páreo ao governo.
Mesmo que isso signifique trair para a plateia uma grande contradição com o discurso que manteve desde outubro do ano passado, quando disse pela primeira vez estar disposta até a ir para a convenção do PMDB pelo direito à legenda.
Seja como for, contradições e blefes à parte, a senadora, com essa cartada surpresa, abre inteiramente o jogo eleitoral no Espírito Santo. Sim, senhoras e senhores: temos um jogo!
Vigor sem rigor
De Rose de Freitas, segundo sua assessoria, no fim da tarde de sexta-feira: “Estou vigorosa na determinação de ir à convenção”. O vigor não durou 24 horas.
Renata Abreu
A presidente nacional do Podemos (antigo PTN) foi descrita em reportagem do “Estadão” como uma das dirigentes mais ativas durante a janela, na captação de novos quadros dando sopa no Congresso. O jornal a apelidou de “janeleira”. Seu approach era o melhor de todos.
Dispensa preliminares
Quando esbarrava, nas galerias do Congresso, em um(a) parlamentar que ela sabia querer trocar de partido, segurava a “presa” com um abraço e mandava esta sem rodeios: “E aí, Podemos?”
Constatação
Rose pôde.
Ela piscou; ele pescou
Zezito Maio fará companhia a Rose no novo lar. O pescador de piadas aproveitou a janela para também se mudar com vara e cuia do PMDB para o Podemos.
Elda foi a Hartung
Durante a cerimônia de promoção de oficiais da PMES realizada no Salão São Tiago, na noite da última sexta-feira, o gabinete do governador Paulo Hartung, logo ali ao lado, era um entra e sai de autoridades que não parava. Instantes antes de a assessoria do Palácio Anchieta confirmar a nomeação de Eder Pontes como procurador-geral de Justiça para o biênio 2018-2020, a atual ocupante do cargo, Elda Spedo, passou por lá. Também presente à cerimônia, Eder era só sorrisos no Salão São Tiago.
Influência de Hartung
No mesmo embalo, quem também teve audiência no gabinete do governador sexta à noite foi o deputado estadual Marcelo Santos, que então precisava decidir se ficava no PMDB ou ia para o PDT. Ao entrar, comentou com a coluna: “Espero poder decidir minha vida agora, pra poder ir embora logo”. Mas saiu do gabinete ao lado de Zé Carlinhos (PSD), dizendo que não havia resolvido. No dia seguinte, passou para o PDT.
Quem manda no PRB?
O PRB, é verdade, foi a sigla que mais ganhou adesões no Estado nestas últimas semanas. Mas está difícil entender quem será o novo presidente estadual da sigla, hein! Vejam aí se vocês entendem o que tentou dizer o deputado Erick Musso, uma das “novas aquisições” e um dos muitos “presidenciáveis” do PRB-ES. “É um partido de quase cinco presidentes. Estava com o Devanir (Ferreira), iria para o Roberto (Carneiro), que passaria para o Amaro (Neto)... Amaro abriu mão e passou para mim. Rodney (Miranda) é o elemento surpresa.” Parece narração de futebol!
“Me incluam fora dessa”
Mas um nome pelo menos já podemos excluir: Rodney, que ouvia toda a resposta de Erick, tirou o corpo fora assim que escutou seu nome: “Minha última experiência foi traumatizante. Sou só filiado”, disse o ex-prefeito de Vila Velha, derrubado da presidência estadual do DEM pela direção nacional do partido.
Braço direito quebrado
Braço direito de Rodney, o ex-secretário-geral do DEM-ES, Toninho Magalhães, também assinou ficha no PRB, ao lado do ex-prefeito. No ato de assinatura, apareceu com o braço quebrado. Questionado pelos demais, explicou: “Foi a queda que sofremos no DEM, com a nomeação de Norma Ayub para presidir a Executiva capixaba.” Essa foi, na verdade, a razão da saída dos dois demistas.
De calouro a sucessor
A ligação entre Nylton Rodrigues e seu substituto no comando-geral da PMES, Alexandre Ramalho, remonta aos tempos de cadete. Nylton entrou na academia de formação de oficiais – o curso era então em BH – em 1988. No ano seguinte, Ramalho foi seu calouro. Dali nasceu uma amizade que dura até hoje e que evoluiu para uma estreita parceria política dentro da corporação. “No primeiro dia de Ramalho na academia, eu o recebi e o levei ao almoxarifado para pegar a roupa de cama dele. E de lá para cá desenvolvemos essa amizade”, conta o novo secretário estadual de Segurança Pública.
Bons de lápis
Além do “espírito de gestor” destacado por colegas, André Garcia e seu sucessor, Nylton Rodrigues, têm um ponto em comum: gostam de escrever artigos e pôr no papel suas ideias. Ambos disseram à coluna ter escrito de próprio punho os respectivos discursos, na solenidade que marcou a “passagem de bastão”, na última sexta. “Escrevi cada linha, em uma noite de insônia”, contou Garcia.
Bota insônia nisso
“Mais uma”, poderia dizer Garcia. Em 5 anos na Sesp, ele acumulou nove quilos a mas e uma gastrite. E, realmente, precisa dormir às vezes com ajuda de remédios.