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Queridas, voltei!

Após depressão, o cabeleireiro Ricardo Magalhães está de volta

Um dos principais cabeleireiros do Estado, ele lembra sua trajetória e como está sendo seu recomeço

Publicado em 08 de Março de 2019 às 10:46

Publicado em 

08 mar 2019 às 10:46
Conhecido pelos cortes e penteados, Ricardo Magalhães acaba de abrir um novo salão de beleza em Vitória. "Estou muito realizado. Percebi que não sou apegado às coisas materiais" Crédito: Ricardo Medeiros
Ricardo Magalhães está mais sereno. E esse estado de calmaria é resultado de uma profunda transformação que ele passou principalmente nos últimos três anos. “Deixei as coisas materiais de lado. Agora quero acumular experiências com as pessoas”, diz numa tarde de quinta-feira.
Um dos principais cabeleireiros do Estado, sempre esteve na mira os holofotes, principalmente por conta da profissão. Até que cansou. Em suas palavras, desapegou. “Percebi que estava vivendo uma ostentação”.
Fechou as portas do salão que teve durante 12 anos na Praia do Canto, assumiu e começou a tratar a depressão, e decidiu ficar seis meses na Espanha. “Esvaziei a mente. Estava sentido falta de ser filho. Eu sempre fui muito pai dos outros”, conta. Só os amigos mais próximos souberam desse tempo na Europa.
Nossa conversa aconteceu em seu novo salão de beleza, o Id Hair & Soul, em Vitória. Como pano de fundo, música brasileira. Aos 48 anos, ele está pronto para recomeçar.
Você acaba de abrir um novo salão. Qual a proposta dele?
Ele tem três meses e foi uma fase de recomeço na minha vida. Há três anos eu comecei a fazer isso acontecer. Percebi que no mercado os grandes salões estão enxugando, ficando compactos. E que o atendimento, mais intimista e que eu gosto de fazer, estava se perdendo. A coisa foi ficando muito grande e eu perdendo o contato com as clientes. Preferi retomar esse tipo de atendimento que sempre gostei, criando uma ponte com as minhas clientes.
Durante mais de uma década você teve um salão com seu nome, num ponto nobre na Praia do Canto. E aí fechou. O que realmente aconteceu?
Percebi que estava trocando seis por meia dúzia. Eu fui desapegando. Vi que aquilo era uma ostentação, um status fictício que oferecia para as pessoas, e aquilo estava me sobrecarregando.
Não dava dinheiro?
Dinheiro dava, mas você ganha mais e também gasta mais. Eu percebi que com menos, ganharia menos, porém teria qualidade de vida. Eu tinha dinheiro para gastar, mas não tinha tempo. Eu não usufruia dos momentos, apenas acumulava coisas. E a verdade, para mim, é quando você consegue usufruir aquilo que constrói.
Houve a história de que você quebrou....
Não quebrei, porque estou aqui. Na verdade foi uma opção de mudança. Eu poderia continuar com aquilo, mas continuaria sustentando uma aparência. Eu fiz essa escolha, e também pude perceber as pessoas que trabalhavam comigo. Muitas vezes, a gente contratava e eu estava trabalhando com o inimigo. E sobre o comentário, eu quebraria senão tivesse aprendido com isso.
Após esse episódio você ficou seis meses fora do país. O que foi fazer?
Eu fiquei desencantado e fui morar na Espanha, onde parte da minha família vive. Poucas pessoas souberam. A paixão pelo meu trabalho fez eu voltar. Fiz uma economia, abdiquei novamente de muitas coisas, para me refazer de novo.
Teve algum episódio marcante onde você percebeu que não queria mais viver aquela vida de aparências?
Para fechar o antigo salão eu fiquei três anos processando a ideia. Quando realmente aconteceu de fechar, eu não anunciei para ninguém, foi quando entrei em terapia. Justamente eu não sabia a resposta da melancolia que me dava toda vez que chegava perto do Natal, por exemplo. Eu trabalhava muito e não conseguia fazer parte das festas de família. Fazia o que amo, tinha uma clientela incrível, pessoas legais ao meu lado, só que não entendia a tristeza profunda que tinha.
Você teve depressão...
Tive uma depressão muito forte e profunda. Foi um período de isolamento total, onde criei um mundo paralelo. Eu não percebia a doença porque era quase um estado natural, só que comecei a ter medo das novidades, de pessoas novas, de entrar em avião e de dirigir para longe, coisas que fazia naturalmente. E me percebi muito dentro de casa.
“Fazia o que amo, tinha uma clientela incrível, pessoas legais ao meu lado, só que não entendia a tristeza profunda que tinha. Era depressão”
Muita gente sumiu da sua vida nesse momento?
Muitos do que eu achava que eram amigos. Mas é bom isso acontecer, foi aí que tive a prova que tomei a decisão certa. Foi naquele momento que os verdadeiros amigos apareceram, porque eu não precisava ter muito contato. O amigo não te cobra, não oportuna. Mas na hora que você realmente precisa, ele está ali sem interesse algum. Todo aquele mundo de fantasia desapareceu.
Como você está hoje?
Me cuidando. Ainda faço tratamento com a minha terapeuta. Quanto mais velho você entra em depressão, mais difícil é. E como eu vivia numa roda viva muito festiva - muita festa, fotos, exposição - não dava tempo de perceber. Realmente decidi me policiar. Descobri que o meu melhor amigo sou eu.
Você passou por outros salões onde era funcionário. Não ser a estrela principal te incomodou?
Quando voltei da Espanha, não queria ter mais problemas, dor de cabeça e preocupações. Os dois salões por onde passei foram ótimos, mas não era ainda a forma de atendimento que achava ideal. Estava na zona de conforto, ganhava meu dinheiro. Mas não queria somente isso.
Como é a sua relação com outros cabeleireiros da cidade?
Muito respeitosa. Tenho amigos, gente que admiro e admiradores que me admiram, sendo que eles são os meus ídolos. O Nahor Bastos é um deles, foi quem me inspirou quando fui assistente. O Mendes também, mas com ele não tem amizade e sim um respeito. Antes de nos conhecermos a gente já trocava clientes.
As suas clientes vão onde você está. O que se deve essa fidelidade?
É uma prova que eu consegui alcançar uma evolução junto com elas. Tenho clientes há mais de uma década, que vão crescendo e me acompanhando. Hoje estou na terceira geração, já fiz noivas que foram minhas clientes na festa de 15 anos. São pontes generosas. Não vejo as mulheres como bolsa de dinheiro. Só vou saber quem são elas depois, a primeira instância é o que importa. Sobrenome e conta bancária só interessa a ela.
Você é vaidoso?
Hoje a minha vaidade é muito espiritual.
E é um homem realizado?
Muito realizado, principalmente depois dessa mudança. Percebi que não sou apegado às coisas materiais. Tenho uma carro na garagem, mas ando de bicicleta, por exemplo. Não quero gastar dinheiro e poluir o planeta.
O que falta acontecer na sua vida?
Hoje percebo que todo homem deve ter um filho. Você consegue deixar um legado, sua continuidade. Quero ser pai, sei que quando isso acontecer nosso vínculo será para sempre.
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