Quem passar pela porta do Ministério da Saúde haverá de notar uma estranha fila de desencantados. Não, não são os funcionários que se aposentam com a metade do salário através de uma bandidagem burocrática que consegue desconsiderar, em alguns casos, dez anos de trabalho. Não, não é só isso não.
Trata-se do caminho de volta, a vingança. Diferentemente de como se ludibria as criancinhas brasileiras nas cartilhas, publicando que o Brasil foi descoberto, quando na verdade foi invadido violentamente por Portugal. Todo santo dia milhares de refugiados tupiniquins buscam diariamente documentação lusa para usufruir da assistência médica no país de Eça de Queiroz. É isso mesmo: os portugueses estão facilitando a entrada de brasileiros, oferecendo trabalho e tudo. Que estranho, parece vingança.
Será que nossa pátria quer se ver livre de nós? Teriam os portugueses aprendido o jeitinho nacional, essa nossa vergonha institucional. Teriam?
Sabe, minha senhora, qual será o preço dessa bondade? Ralamos em um momento em que não há estrutura organizada para qualquer gestão. Paira no nosso grupo de sábado, os Salvadores do Universo, a previsão segundo a qual se o próprio filho de Deus, sem partido, fosse eleito presidente desta coisa em que nos transformamos, não teria dúvidas: corram direto para o Mar Vermelho e não olhem para trás senão se transformarão em estátuas de sal... Quanto ao Brasil? Este não pega nem meia sola (depois eu faço outro, deixa o Amyr Klink descobri-lo com mais paciência).
Luiz Gonzaga, sobrevivente do sertão, rezou tanto para chover que alagou a vila toda do Ceará. Crente que era, foi pedir desculpas ao Pai assumindo a culpa de tudo
Lembro agora da canção do Edu Lobo na era da resistência poética à ditadura, compondo “Borandá”, a saga dos que fogem com medo da própria terra que cultivaram e amaram.
“Borandá, que a terra já secou borandá, é borandá que a chuva não chegou. Já fiz mais de mil promessas, rezei tanta oração, deve ser que eu reze baixo pois meu Deus não ouve não. Vou-me embora, vou chorando, vou me lembrando do meu lugar, quanto mais eu vou pra longe, mais eu penso sem parar. É melhor partir chorando que ver tudo piorar”.
Respeitável público, aqueles que cantam a vida e a morte fazem nosso peito gemer.
Luiz Gonzaga, sobrevivente do sertão, rezou tanto para chover que alagou a vila toda do Ceará. Crente que era, foi pedir desculpas ao Pai assumindo a culpa de tudo. “Rezei pra chover um pouquinho, não precisava mandar toda chuva que há. Senhor se eu não rezei direito o senhor me perdoa, porque esse pobre nem sabe mais fazer oração”.
Atenção, todos de joelhos, vem aí o carnaval eleitoral.