
Isabella Muniz Barbosa*
Em tempos tão difíceis, escapou-me a letra, o verso, a composição criativa. Recolhi-me. Indaguei-me sobre o que refletir. Nada me parecia interessante descrever. Incessantemente acontecem tensões que desestabilizam a calma intuitiva aparente: Pai que mata filho, filho que mata pai. Feminicídio. Corrupção. Desemprego. O mundo mudou, eu mudei. Nem sempre as mudanças são tão boas. Desalento, palavra tão presente no cotidiano vivido com tantas interrogações e perplexidades.
Ignorando metáforas, mesmo que elas possam existir, desenvolvo possibilidades na composição de negociar um fato novo. Fujo, sobretudo, da necessidade de negociações. Ludibrio o pensamento, procuro um fato novo, algo que nos desloca do comum. Piso na areia. Enfim, a Lua vermelha capta o sensível. Deparo-me com sentimentos ambivalentes. Estaria à procura de Deus? Para Agostinho, para a visão sensível além do olho e da coisa é necessária a luz física; para o conhecimento intelectual, a luz espiritual. Esta luz, pra ele, vem de Deus.
O sentimento de maravilhamento do mundo se contrapõe ao fragmentário. Este olhar subjetivo anseia apenas por estar no lugar onde possa se reconhecer, desviar um pouco dos objetos. Precisa-se, antes de tudo, respirar mais, sentir mais, vibrar mais
Para o filósofo contemporâneo Pondé, o homem cria seres imaginários, deuses e orixás, para essa fuga esmagadora do desamparo diante do mundo. Existe uma profusão de teorias para cada indagação. Mas nada é exato. Historicamente, a verdade é produzida como exercício do poder. Interrompo o fluxo de pensamentos. Afasto-me por instantes do objeto-cidade. A cidade impregna sensorialmente com estímulos de toda espécie. Essas impressões, os gestos, os sentimentos não verbais com características metafóricas salientam, realçam a dimensão sígnica de mediação pela qual a cidade se faz representar por seu interlocutor, o sujeito urbano.
O sentimento de maravilhamento do mundo se contrapõe ao fragmentário. Este olhar subjetivo anseia apenas por estar no lugar onde possa se reconhecer, desviar um pouco dos objetos. Precisa-se, antes de tudo, respirar mais, sentir mais, vibrar mais.
Georg Simmel (1971) em seu ensaio sobre a vida mental nas metrópoles, define o homem urbano pelas impressões e a intensificação de estímulos exteriores e interiores. Para o autor, o homem metropolitano desenvolve uma intelectualidade que se destina a preservar a vida subjetiva contra o poder avassalador e inesperado da metrópole. Essa diferenciação do sujeito metropolitano confere-lhe uma certa atitude blasé, ou seja, o resultado do excesso de estímulos contrastantes e rápidos que embota a capacidade da pessoa de reagir.
Somente afastando os complexos estímulos advindos da velocidade da vida moderna poderíamos tolerar seus extremos. Precisamos desses “escapes”, reflexivos ou não, para que a rotina se restabeleça.
*A autora é arquiteta urbanista