Há vários Brasis no mesmo Brasil. Na área da saúde, o noticiário dos últimos dias tem nos mostrado realidades bem divergentes. Enquanto em uma versão de Brasil a maioria dos estabelecimentos públicos de saúde do Espírito Santo não tem nem sequer um aparelho para medir a pressão arterial, segundo constatou fiscalização do Conselho Regional de Medicina, em um Brasil paralelo a Assembleia Legislativa capixaba aprovou o deslocamento de mais cinco servidores para o “postinho” da Casa, onde 17 pessoas já atuam apenas para atender funcionários do Legislativo e seus parentes.
As contradições não se encerram por aí. Lembremos que os planos de saúde tiveram, de uma só tacada, reajuste de mensalidade e aumento do limite de coparticipação para 40%. Segundo alerta de órgãos de defesa do consumidor, as mudanças aprovadas pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) podem dobrar os custos do serviço para os usuários – que, muitas vezes, contorcem-se para arcar com a despesa para fugir do caos da saúde pública, cenário comprovado pela blitz do CRM no Estado.
E, enquanto a população lida com a escassez até de itens básicos de higiene em ambulatórios e unidades básicas de atendimento ou juntam as moedas para encarar a fatura do setor privado, em um outro país bem aqui ao lado o Tribunal de Justiça do Espírito Santo aprovou um reajuste de 7% no auxílio-saúde, pago a todos que integram a Justiça Estadual. Trata-se do segundo reajuste em menos de um ano – o anterior foi de 9,7%, em novembro passado.
O último dado nesta conta que não fecha é de que, enquanto a população capixaba cresceu mais de 14% entre 2010 e 2017, o Estado perdeu 322 leitos de internação públicos entre 2010 e 2018, de acordo com pesquisa do Conselho Federal de Medicina (CFM). Enquanto não for reduzida a distância ultrajante entre a população à míngua nas filas de hospitais sucateados e a casta dos privilegiados que legislam sobre os próprios benefícios, os Brasis continuarão inconciliáveis.