Se alguém achou que o procurador Carlos Fernando da Silva Lima, integrante da força-tarefa da operação em Curitiba, exagerou quando disse, em fevereiro, que todos os que atuam na Lava Jato estão “na linha de tiro, com a cabeça a prêmio”, deve rever a sua avaliação: nunca esteve tão forte a reação contrária à mais bem-sucedida operação de combate à corrupção no Brasil. Lima foi um dos palestrantes do evento “Diálogos sobre Integridade” realizado pela Rede Gazeta e, talvez porque falou após o ministro Luís Roberto Barroso, sua advertência não tenha tido a repercussão que merecia.
Basta, entretanto, lembrar de fatos recentes para constatar que o movimento de desmonte da Lava Jato está em pleno curso. No Congresso, dezenas de deputados - inclusive alguns da bancada do Espírito Santo - propuseram a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar “possíveis manipulações” em delações premiadas, a chamada “CPI das Delações” ou “CPI da Lava Jato”. No STF, alguns ministros, da famosa Segunda Turma, pressionam para pôr fim à prisão dos condenados em segunda instância para restabelecer, como diz o ministro Barroso, a vergonhosa “cultura de o processo levar dez, 20 anos, até prescrever”.
a tentativa do PT de registrar a candidatura de Lula, inelegível pela Lei da Ficha Limpa, condenado em segunda instância e preso, é um desafio explícito à Lava Jato que o investigou, processou e condenou
Nesta semana, esta mesma Segunda Turma decidiu que denúncia baseada somente em depoimentos de delatores e nas provas por eles apresentadas não são suficientes para transformar o inquérito em ação penal e, em consequência, o inquérito deve ser arquivado. E, no plano político, a tentativa do PT de registrar a candidatura de Lula, inelegível pela Lei da Ficha Limpa, condenado em segunda instância e preso, é um desafio explícito à Lava Jato que o investigou, processou e condenou.
Acrescente-se que há um outro candidato a presidente, em plena campanha eleitoral, que não se cansa de criticar a Lava Jato. Em 2016, quando da condução coercitiva de Lula para depor, já havia sugerido o “sequestro” do ex-presidente para que ele fosse levado a uma embaixada para pedir asilo. Um ano depois, desafiou o juiz Sérgio Moro: “Ele que mande me prender; eu vou receber a turma dele na bala”. Na mesma entrevista, disse que o Brasil está se transformando em “uma República do dedo duro”. E, há duas semanas, afirmou que, sendo eleito, vai “botar juiz para voltar para a caixinha dele, botar o Ministério Público para a caixinha dele e restaurar a autoridade do poder político”.
Cabe ao eleitor, nas próximas eleições, cada vez mais, decidir se quer de fato restaurar a moralidade buscada pela Lava Jato ou eternizar o Brasil da impunidade tão a gosto da nossa velha política.