Um prédio de 24 andares que rui em pleno de Centro de São Paulo, nas circunstâncias que foram amplamente noticiadas, é uma tragédia anunciada. E, pior, ecoa pelos grandes centros urbanos do país, onde edifícios abandonados fazem parte da paisagem, ocupados ou não. Em Vitória, não foi difícil repercutir essa calamidade brasileira: em apenas uma tarde, na terça-feira, a repórter Beatriz Marcarini conseguiu encontrar no Centro construções em condições similares as do Edifício Wilton Paes de Almeida, como mostrou reportagem de ontem deste jornal.
Na edição de hoje, o drama dos sem-teto e das ocupações ilegais volta a ter espaço. O déficit habitacional é uma realidade nacional, de efeitos sociais graves. Em seis prédios do Centro da Capital, mais de 200 pessoas ocupam os imóveis, sem garantias mínimas de segurança. São construções antigas, deterioradas, sem condições estruturais asseguradas. Como os moradores do prédio incendiado em São Paulo, são pessoas que, na falta de alternativas, acabam colocando as próprias vidas em risco.
Há um impasse evidente. Enquanto proprietários – o poder público ou particulares – se omitem, esses imóveis abandonados – muitos deles marcos arquitetônicos de décadas atrás – são invadidos. Do descaso de quem deveria garantir a segurança estrutural abre-se a brecha que permite invasões organizadas por movimentos sociais. Não é tão difícil assim apontar os responsáveis.
Não são somente prédios abandonados, são pessoas abandonadas à própria sorte. O desabamento em São Paulo é mais uma marca em um país ferido, que luta contra uma dificuldade crônica de resolver suas questões mais básicas. É caso de cobrança de responsabilidades, mas também de recuperação de uma cidadania perdida.