*Marcos Alencar
Havia um barzinho jeitoso na Rua da Grécia, entre a Praia do Canto e o baixo Barro Vermelho. Seus proprietários eram dois irmãos ruivos, muito simpáticos e gentis. O ambiente era aconchegante: um balcão e uma meia dúzia de mesinhas, em ambiente aberto, separado da rua por um muro de metro de altura. Havia no balcão um telefone para uso dos fregueses. Gentileza mais do que bem-vinda numa época em que ainda não existiam os celulares.
Uma peculiaridade do estabelecimento: acho que pelo fato de estar localizado fora do eixo onde mais pessoas circulavam, o local era um verdadeiro ninho de adoráveis pecadores. Jovens amantes, e muitos outros nem tão jovens assim, faziam ali um antepasto, digamos assim, de seus desejos carnais. A pouca iluminação, a discrição dos proprietários e a conivência dos demais frequentadores garantiam a tranquilidade dos casais.
No silêncio da noite, vez por outra, o telefone tocava. E chegava a assustar, já que os sussurros de cada mesa nem sequer incomodavam os da mesa ao lado. Quando isso acontecia, todos os olhares se voltavam para o balcão. Um dos ruivos atendia e repetia em voz alta o que dele indagavam: “ Fulano?”. E lá de sua mesa, o “fulano” sinalizava que não. E ele docemente mentia: “Tem tempo que ele não aparece.” E o amor continuava no ar.
Amigo dos ruivos, volta e meia eu passava por lá para tomar um uísque e bater um papo naquele balcão. E, numa dessas vezes, chovia e as mesas estavam mais amontoadas para fugir dos respingos. Numa mesa de canto, uma figura muito conhecida na cidade, bebericava uma cerveja e tinha um ar tristonho de quem fora rifado pelo seu amor. Naquela noite, o telefone tocou quatro vezes, atrás de fulanos que sinalizavam suas ausências, à distância. Quando o telefone tocou pela quinta vez, o abatido Mané Diabo, um adorável filósofo insular, falou mais alto: “Ô ferrugem, se for pra mim eu estou! Estou até pra cobrador!!”
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Um executivo de uma grande empresa, recém chegado a Vitoria, buscando uma aproximação com o pessoal da imprensa local, convidou um grupo de jornalistas e outros profissionais que atuavam na área para um almoço elegante no Hotel Ilha do Boi. Os convidados eram recebidos na pérgula da piscina, com vistas para a Praia do Canto. Todos tomavam uísque, de muitos anos, quando chegou uma figura muito querida, o saudoso jornalista Pedro Maia. Pedro, um boêmio famoso nas “quebradas”, cheio das histórias, não fazia a linha chique do local. Na verdade ele era radicalmente contra ambientes mais refinados, aos quais se referia como “daquele pessoal cheio de frescuras”. “Um uísque, senhor?”, ofereceu o garçom. E Pedro: “Senhor é o..., deixa pra lá”. E emendou: “Posso pedir um coquetel?” “Claro”, disse o da gravata, como Pedro se referia aos garçons. “Então me traga uma caipirinha.” Quando o garçom já ia buscar o pedido, Pedro o segurou pelo paletó e arrematou: “Tive uma ideia melhor: tira o gelo, o limão e o açúcar. Traz só a cachaça. Pode ser ou tá difícil?”
*O autor é cronista do caderno Pensar