Desde 2015 o segmento de saúde brasileiro tem sido alvo do interesse de grandes grupos e de fundos de private equity, que são formações que investem recursos em empresas e atuam em conjunto com a gestão do negócio. Em geral, esses fundos apostam em companhias com potencial de crescimento e, consequentemente, de retorno financeiro.
Pois bem, a “turma” dos fundos, inclusive estrangeiros, também está de olho nos negócios do Espírito Santo. Do ano passado para cá, o Estado caiu no gosto desses investidores que estão aportando recursos em hospitais, planos de saúde, clínicas e laboratórios.
Alguns dos exemplos mais recentes são a compra pelo americano HIG Capital do Hospital Metropolitano, na Serra, conforme a coluna antecipou no dia 1º de novembro. Detalhe, o primeiro movimento do HIG foi junto ao Meridional, quando em junho eles se associaram. Além dessas negociações, há ainda a aquisição pela gestora Pátria da operadora de saúde Samp, a compra do capital acionário do Vitória Apart Hospital, além das clínicas de diagnósticos por imagem Multiscan e CDI.
Esse movimento todo não é à toa. Há um conjunto de fatores que tem impulsionado e fortalecido o interesse dos investidores, conforme revelam o estrategista-chefe da Avenue Securities, William Castro, e o economista e sócio da Valor Investimentos, Paulo Henrique Corrêa.
Segundo eles, o deficiente sistema de saúde pública do país, o envelhecimento da população, a desregulamentação do setor autorizando a participação de estrangeiros nesse mercado e o desejo das pessoas de terem acesso a uma saúde de qualidade formam as condições perfeitas para quem tem dinheiro acreditar que a saúde é um caminho com boas oportunidades.
“A expectativa de vida aumentou em 19 anos da década de 60 para cá. Então, se continuar aumentando, teremos mais pessoas vivendo mais e consumindo ‘saúde’. Além disso, a penetração de planos de saúde ainda é baixa comparada a países mais desenvolvidos. Ou seja, há espaço de crescimento”, avalia William Castro.
Tanto é verdade que o Brasil virou a “menina dos olhos” dos gringos que aquisições como as que estão sendo realizadas no Espírito Santo também vêm acontecendo em Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba e Salvador, apenas para citar alguns locais.
“O que acontece é que a alta do dólar favorece muito investidores internacionais. Imagina... o cara coloca 1 milhão de dólares no bolso e quando desce do avião aqui no Brasil isso virou quase 4 milhões de reais. Facilita muito! Por isso, que muitos estão com todo o gás para investir em saúde e educação, que são duas áreas muito fragilizadas no país”, diz uma fonte do setor de saúde que não quis se identificar.
Essa mesma pessoa acredita que as aquisições vão contribuir para a ampliação dos serviços médicos prestados no Estado assim como para a melhoria da qualidade do atendimento ao consumidor final.
Como a área hospitalar exige recursos vultosos na aquisição de equipamentos e medicamentos, com a atuação dos fundos, essas empresas que estão no Espírito Santo terão mais condições de investir em tecnologias e processos que, na visão dos analistas, serão revertidas em prol do cliente. Sem contar que a partir do momento que um mesmo grupo faz a gestão de vários hospitais, ele passa a ter maior capacidade de negociação junto a fornecedores, reduzindo preços.
“Esse é um setor pulverizado, onde existem muitas empresas com controle familiar e sem profissionalização ou capital para a operação. Então, trata-se de um oportunidade para os investidores, e é bom também para o cliente que deve receber um serviço melhor”, pondera Castro que diz não acreditar que as aquisições podem representar um risco de formação de monopólio nessa área.
Um empresário do segmento também considera pouco provável que a saúde fique, no médio prazo, nas mãos de um único grupo. Mas ressalva que não descarta, por exemplo, que determinado hospital deixe de atender um plano para privilegiar a operadora que faz parte da sua carteira de negócios. “Isso vamos ver com o tempo.”
Paulo Henrique, da Valor, avalia que a chegada desses fundos vai melhorar a concorrência e fazer com que as empresas de uma forma geral busquem melhorar seus serviços ou mesmo diversificá-los. “Isso pode impulsionar a criação de nichos dentro da saúde. Aqui no Estado, por exemplo, já existe um plano que atende só pessoas da terceira idade. Esse pode ser um caminho das empresas para conquistarem mercado.”
Temporário
Se agora os fundos estão comprando empresas por aqui, mais à frente certamente vão vendê-las. Essa é a dinâmica dos fundos de private equity, que têm o objetivo de melhorar o desempenho e os resultados do negócio adquirido para depois partirem para a abertura de capital em bolsa ou vender o ativo para outro grupo.
Sobrevivência
Algumas empresas encaram a venda de parte ou da totalidade dos seus ativos como uma questão de sobrevivência. A comparação com o que aconteceu no ramo de farmácias chega a ser inevitável. “Ou vendemos ou seremos engolidos!”, lamenta um empresário.
Negociações
O apetite de fundos por empresas capixabas continua. Nos bastidores há informações de que o São Bernardo Saúde já está em processo de negociações com o Pátria. Mas, oficialmente, ninguém confirma. Outro na lista de sondados pelo mercado é o Hospital Vila Velha.
Por agora não...
A MedSênior também tem sido alvo do “assédio” dos grandes grupos. Pelo menos três investidores já procuraram a empresa, mas a coluna apurou que, por enquanto, não há interesse de venda.
Relação afetiva
A venda do Metropolitano não deixou todas as partes 100% felizes, mesmo que tenha entrado um dinheiro no bolso. Tem quem admita que vai sentir falta de se dedicar ao hospital. “É como se estivesse ficando desempregado”, brinca uma fonte.
O que atraiu os fundos
- População está está vivendo mais e tende a consumir mais “saúde”
- O sistema de saúde público tem deficiências e há dúvidas sobre sua sustentabilidade no longo prazo
- A penetração de planos de saúde já aumentou no país, mas ainda é baixa comparada a nações mais desenvolvidas
- A saúde é, junto com a educação, um dos serviços ou produtos mais desejados pela população.
- Real desvalorizado frente ao dólar e ao euro é o que atrai investidores
- Mudança na legislação em 2015 permitiu a participação de investidores estrangeiros no setor de saúde brasileiro