Quando o presidente Michel Temer assumiu o governo em agosto de 2016, após o impeachment de Dilma Rousseff, criou-se uma onda de otimismo em vários setores, que esperavam ver a economia voltar a crescer e as reformas, especialmente a da Previdência, saírem do papel. O tempo passou, muita coisa não andou e as expectativas positivas perderam força. Agora, próximo do fim do mandato do emedebista, a desconfiança em relação à política permanece, e não só no âmbito federal.
Mesmo com o tumultuado processo eleitoral batendo à porta, as empresas do Espírito Santo estão dispostas a investir e a contratar. A inclinação para melhorar ou expandir os negócios foi constatada pelo levantamento “A Economia e a Percepção do Empresariado”, feito pela coluna com 114 empresários de segmentos diversos e dos mais variados portes.
O formulário, composto por 14 questões, ajudou a traçar ainda um diagnóstico de como os empreendedores estão enxergando a economia e a política. Nos dois casos com pessimismo, desconfiança ou no mínimo cautela.
O que explicaria então a predisposição de 77 empresas, ou seja, 67,5% delas, de investirem nos próximos seis meses, e de 64% dos participantes (73) afirmarem que vão contratar ou estão avaliando abrir novas vagas? Infelizmente, esse planejamento empresarial não está pautado na crença da recuperação consistente da economia, até porque, enquanto os próximos governantes não tiverem sido eleitos, qualquer previsão dos rumos que o país vai tomar não passa de palpite e especulação.
A injeção de dinheiro no negócio é uma reação, quase indispensável, entre aquelas empresas que querem sobreviver no mercado. Com a economia fragilizada e ainda amargando resultados ruins, não realizar investimentos é deixar que a sustentação da empresa seja corroída.
Desde o final de 2014, quando a crise estourou, muitas companhias ficaram paralisadas, mas, após um longo período sem investir, já não dá para esperar mais. É preciso recompor a estrutura produtiva e compensar perdas como a depreciação de maquinários e equipamentos.
De acordo com o levantamento da coluna, dos que vão aportar recursos no negócio em 2018, 26 o farão até R$ 50 mil, 20 vão investir de R$ 51 mil a R$ 500 mil e 28 preveem volumes superiores a meio milhão de reais. E o que chama a atenção é que a intenção de investir está presente e é parecida entre as empresas que têm até 10 funcionários, as com de 10 a 49, e as de 50 a 249 profissionais. Em média, 65% de todas elas contam com isso no planejamento. Já entre as grandes, que empregam mais 250 pessoas, 81% delas vislumbram investir ainda neste ano.
Mas não é só a necessidade de se manterem vivas e competitivas que leva as pequenas, médias e grandes empresas a investirem e, consequentemente, a contratarem. A inflação mais baixa e controlada traz de volta a capacidade do consumidor de ir às compras, gerando uma demanda um pouco maior por produtos e serviços.
Somado a isso, as opções de alocar recursos em títulos do governo, que há pouco tempo pagavam 14% de juros, já não se mostram tão vantajosas. Então, com a Selic a 6,5% ao ano, muitos empreendedores preferem investir no seu estabelecimento, mesmo que corram algum risco para isso. Aliás, risco não é o problema, ele faz parte do dia a dia de qualquer empresa, mas o que os gestores querem é o mínimo de previsibilidade para tocarem seus negócios.
Rombo fiscal
Para 48,2% dos empresários ouvidos pela coluna, a má gestão das contas públicas é a principal responsável pelo mau desempenho da economia nacional. Na sequência, aparecem os fatores corrupção, com 36%, gastos excessivos com privilégios (13,2%) e política de benefícios fiscais (2,6%). Política de benefícios sociais também foi uma das alternativas, mas ninguém marcou essa opção. Um empresário da construção civil defendeu após preencher o formulário: “Para a economia melhorar é preciso atacar algo objetivo, como os privilégios. É óbvio que corrupção e má gestão precisam ser melhoradas, mas falar disso não gera efeito”.
Até 2% de crescimento
Essa é a expectativa de 51% dos entrevistados para o resultado do PIB do país em 2018.
Espírito Santo X Brasil
A avaliação sobre as condições da economia se mostrou mais favorável no ES do que no Brasil. Enquanto no Estado 15,8% consideram o quadro como bom, no país esse percentual não chega a 2%.
Preocupação política
Não é nenhuma novidade o desencanto do eleitorado com a política. Mas, em época de convenções partidárias, vale reforçar o quanto as pessoas estão receosas com o quadro que está por vir. Para 97,4% dos empresários que participaram do levantamento, as eleições de 2018 são motivo de preocupação. E 88,6% consideram que o alerta vermelho se dá em todas as esferas e cargos. Vamos esperar que a opinião do eleitor seja considerada e que a bandeja de candidatos a ser oferecida até o dia 5 não venha velha e enferrujada.
Urgência, urgentíssima!
A lista de temas que precisa ser olhada com atenção pelo próximo presidente eleito é gigante. Mas para quem respondeu ao formulário da coluna três assuntos devem ter prioridade:
1º Sistema tributário
2º Previdência
3º Ambiente de negócios (menos burocracia).
A pergunta “Quais temas considera urgentes de serem trabalhados pelo futuro presidente para o país voltar a crescer” trazia 11 opções e permitia que o participante escolhesse três itens.
Rumos para o desenvolvimento
Para o país voltar para os trilhos do desenvolvimento, outro tema para o qual o setor produtivo pede o olhar do futuro presidente é a infraestrutura.
COMO FOI FEITO?
O levantamento “A Economia e a Percepção do Empresariado” foi feito por meio de um formulário enviado por WhatsApp e por e-mail para mais de 300 pessoas com negócios no Espírito Santo, no período de 26 de junho a 13 de julho. Desse total, 114 donos de empresa de diferentes portes e segmentos responderam a 14 perguntas feitas pela coluna.
PERFIL DAS EMPRESAS
Porte
Micro (menos de 10 empregados): 57
Pequena (de 10 a 49 empregados): 24
Média (de 50 a 249 empregados): 17
Grande (mais de 250 empregados): 16
Setores
Participaram empresas que atuam nos segmentos de serviços, comércio varejista e atacadista, extrativa mineral, construção civil, transportes, comunicações, ensino, saúde, imobiliário, alimentos e bebidas, crédito, metalurgia, vestuário, entre outras.
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